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André Santana

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Carnaval negro baiano: por o que Lumena poderia ter militado, mas não o fez

A psicóloga e DJ baiana Lumena Aleluia se tornou uma das mais "canceladas" nas redes sociais - Reprodução/Globoplay
A psicóloga e DJ baiana Lumena Aleluia se tornou uma das mais 'canceladas' nas redes sociais Imagem: Reprodução/Globoplay
André Santana

André Santana é jornalista, cofundador do Instituto Mídia Étnica e do portal Correio Nagô

Colunista do UOL

13/02/2021 04h00

DJ de pagodão baiano e ex-rainha de bloco afro, Lumena Aleluia tem perdido a oportunidade de falar, no programa de maior repercussão do momento, sobre a resistência da música negra da Bahia, que enfrenta a segregação na maior festa popular do Brasil.

A urgência do tema pode ser percebida pela quantidade de lives bem patrocinadas das estrelas do axé music e a ausência de apoio às entidades negras, que mais sofreram os impactos da pandemia.

A participante conhece essa realidade e teria propriedade para dar visibilidade a essa temática.

Lumena Aleluia se tornou uma das participantes mais odiadas desta edição do Big Brother Brasil. A baiana virou exemplo de uma militância arrogante, egoísta, sem empatia e acolhimento.

Distorce, a cada dia, ensinamentos que diz ter recebido no movimento negro e na comunidade de terreiro que frequenta.

Humilhação, abuso psicológico, intolerância religiosa e questionamento de orientação sexual foram algumas das opressões vistas nas primeiras semanas do programa, que contaram com o protagonismo de Lumena ou a omissão conivente da psicóloga.

A participante, que iniciou o programa imunizada pelo público, perdeu a oportunidade de ser divulgadora de um importante movimento cultural: o Carnaval negro de Salvador.

Lumena foi apresentada ao país como DJ de pagodão baiano. Além disso, foi rainha do bloco afro Araketu e uma das finalistas do concurso Deusa do Ébano, que escolhe a rainha do Ilê Aiyê, o mais antigo bloco afro do Carnaval de Salvador.

Ninguém é obrigado a nada e nem se pode determinar, daqui de fora, as motivações da participante. O que se sabe é sobre expectativas criadas.

Ao invés do dedo em riste e linguajar empolado, Lumena poderia utilizar sua vivência, seu conhecimento acadêmico e experiência artística para ofertar informações sobre a história de resistência que grupos culturais negros legaram ao país.

Blocos negros e a reafricanização do Brasil

É muito importante que o Brasil saiba que as entidades carnavalescas, como as escolas de samba e os blocos afro, são responsáveis por um processo de reafricanização da cultura nacional em resistência a uma política de estado de eliminação das heranças africanas.

Graças a entidades como Olodum, Ilê Aiyê, Malê Debalê, Muzenza, Filhos de Gandhy e Alvorada, entre outras, homens e mulheres de pele preta tiveram acesso a um rico referencial de história, arte e beleza para elevação da autoestima.

A presença dos negros, de forma altiva, no Carnaval, com orgulho de seus traços físicos, da cor de sua pele e da textura do seu cabelo só aconteceu graças ao investimento desses blocos que desafiaram o racismo, levando para o disputado espaço da folia um grito por respeito e reparação.

Como diz a canção "Se não fosse o Ilê Aiyê", seria muito mais difícil termos uma juventude negra com tanta consciência de seus direitos e tanta altivez em cobrar por respeito. Talvez ainda não fosse possível a postura de Lumena, que as redes sociais chamam de empoderamento ou tombamento.

Ilê Aiyê tombou o racismo na década de 1970

Tombar mesmo foi a coragem de um pequeno grupo de negros e negras, de sair do bairro do Curuzu/Liberdade e ocupar o centro de Salvador, em 1975, em plena ditadura militar, para desfilar com tecidos coloridos pelo corpo, tranças nos cabelos e uma música que dizia: "Que bloco é esse, que eu quero saber? É o mundo negro que viemos mostrar para você. Somos crioulos doidos, somos bem legais, temos cabelo duro, somos black power".

Nada mais foi igual depois do desfile do Ilê Aiyê e do surgimento dos outros blocos na mesma década de fundação do Movimento Negro Unificado, em 1978. Muita coisa mudou para a afirmação dos negros, para a luta por direitos e para o respeito à cultura de matriz africana.

Margareth Menezes - Reprodução/GNT - Reprodução/GNT
Na internet, público cobra patrocínio para live de Margareth Menezes, um dos maiores talentos da música brasileira, ofuscado pelo racismo do Axé Music
Imagem: Reprodução/GNT

Esse movimento artístico, político e estético, cuja base rítmica é o samba reggae, possibilitou jovens negros a sonharem, transformou a realidade das periferias de Salvador, de outras cidades do Brasil, em conexão com periferias do mundo.

Uma ação revolucionária afro-pop, que a antropóloga Goli Guerreiro chamou de "A trama dos Tambores".

Axé Music manteve segregação racial

Contudo, o racismo (sempre ele) não permitiu que essa transformação viesse acompanhada de uma distribuição justa dos benefícios gerados.

Exemplo disso, é que o gênero mais rentável do Carnaval da Bahia, o axé music, bebeu da fonte do samba reggae, adaptou o conteúdo de suas letras, extrapolou os limites do estado, conquistou palcos e mídias nacionais e internacionais, mantendo as segregações raciais estruturais.

Apesar da base rítmica ter origem nas quadras dos blocos negros, o gênero de sucesso a partir da década de 1980, privilegiou artistas brancos como porta-vozes do "canto do povo de um lugar".

A indústria musical e a mídia nacional permitiram a artistas não negros a assumirem ser: "o canto da cidade e a cor da cidade". Isso em detrimento de talentos que mantêm a conexão da festa com as origens populares de resistência.

São os cantores dos blocos afro e grupos de samba e também os compositores, dançarinos, percussionistas e outros instrumentistas destas entidades de pouca visibilidade, e quase nenhum investimento público, que mantêm o compromisso da música negra do Carnaval com a herança africana que formou esse país.

Segregação continua. Pagodão é resistência

Essa história precisava contar com a militância de Lumena, já que a segregação continua. Basta conferir as agendas de lives para este Carnaval virtual de 2021 e a quantidade de patrocinadores envolvidos.

Enquanto as entidades negras penam para se manter em meio à pandemia que agravou a desigualdade. O Ilê Aiyê, inclusive, ainda busca apoio para pagar uma dívida e impedir a perda da sede onde realiza shows e projetos de educação para a comunidade pobre de Salvador. Como já contamos aqui.

Também já falamos aqui sobre a força do pagodão baiano, ou pagode eletrônico, que tem possibilitado às novas gerações de músicos da periferia manterem a conexão entre as células rítmicas do samba e a música pop mundial. Isso com um protagonismo negro que faltou ao axé music.

No pagodão baiano que Lumena assume ser DJ, brilham artistas de pele preta como o fenômeno Allana Sarah, conhecida como A Dama, exemplo de ascensão do feminismo negro na música da Bahia.

Seria muito importante, no horário nobre da televisão brasileira e em repercussão pelas redes sociais, o público brasileiro ouvir a DJ e ex-rainha de bloco afro, Lumena Aleluia, militar pela música preta de Salvador.

Uma oportunidade perdida.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL