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André Santana

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Ameaça a prefeita negra parece distopia, mas cidade baiana não é Bacurau

Eliana Gonzaga, prefeita de Cachoeira, nas ruas da cidade - Ascom / Cachoeira
Eliana Gonzaga, prefeita de Cachoeira, nas ruas da cidade Imagem: Ascom / Cachoeira
André Santana

André Santana é jornalista, cofundador do Instituto Mídia Étnica e do portal Correio Nagô

Colunista do UOL

25/04/2021 04h00

É estarrecedora a notícia das ameaças sofridas pela prefeita de Cachoeira (BA), Eliana Gonzaga de Jesus (Republicanos).

Além de atingir diretamente a democracia, o fato evidencia o conservadorismo e a violência patriarcal na política, mesmo em uma cidade símbolo de resistência e de luta pela liberdade.

A prefeita relatou a violência que vem sofrendo desde a campanha, quando foi alvo de injúrias racistas, intimidações em vias públicas e ameaças de morte, como um telefonema com o som de uma rajada de metralhadora ao fundo.

Após a eleição, os crimes se intensificaram e dois apoiadores foram brutalmente assassinados.

Eliana teme pela própria vida, de sua família e de quem trabalha com ela. Mas não cogita abrir mão da confiança depositada pelos mais de 10 mil eleitores da cidade, cuja população é pouco mais de 33 mil habitantes.

"Tenho recebido recados para que eu renuncie. Mas quero deixar bem claro para o povo que Cachoeira não elegeu uma covarde", disse a prefeita.

Quem cuida das mulheres eleitas?

A eleição da ex-feirante —tendo como vice outra mulher, Ana Cristina Pereira (PSB)— ameaçou o poder patriarcal e familiar que governava a cidade.

Ela venceu o ex-prefeito e empresário Fernando Pereira (PSD), conhecido como Tato, que tentava o quarto mandato. Ele foi prefeito de 2005 a 2012, quando passou o cargo para o sobrinho, Carlos Pereira, retornando ao posto em 2017.

Cachoeira elegeu pela primeira vez uma pessoa negra para assumir a administração da cidade de maioria populacional preta e parda. O fato escancara a violência, o racismo e o machismo daqueles que querem manter a velha política patriarcal que torna a democracia no Brasil uma obra em construção. Um espaço hostil às classes populares e às mulheres.

Em novembro, Anielle Franco, irmã da vereadora assassinada Marielle Franco (PSOL), perguntava em sua coluna aqui no UOL: quem cuida das mulheres negras eleitas? Ela alertava para os casos de violências já registrados nas campanhas eleitorais e os riscos que as mulheres sofriam, especialmente as negras, que aumentaram a participação na política.

Cachoeira, Recôncavo da Bahia - Ascom/Cachoeira - Ascom/Cachoeira
Além de cidade histórica de rico patrimônio cultural, Cachoeira, no Recôncavo da Bahia, possui os títulos de Histórica e Monumento Nacional
Imagem: Ascom/Cachoeira

Cachoeira é uma Bacurau?

Um dos principais portos para o escoamento da produção agrícola nos canaviais escravistas do Recôncavo Baiano, nos séculos 18 e 19, Cachoeira tem sua formação marcada pela forte presença negra. As heranças africanas estão nas manifestações culturais, religiosa e gastronômica.

Quem ouve os relatos da prefeita Eliana Gonzaga e os detalhes dos assassinatos denunciados (um deles ocorreu em frente à delegacia do município) pode imaginar que se trata de uma terra sem lei, uma cidade abandonada nos confins do Brasil, retirada da literatura sobre o coronelismo ou do cinema distópico contemporâneo.

Não, Cachoeira não é Bacurau --a cidade fictícia onde se passa o filme dirigido por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles.

Cachoeira fica a apenas 120 km da capital Salvador e --diferentemente da isolada Bacurau-- em uma região de intensa movimentação cultural, artística e turística: o Recôncavo da Bahia.

Entre os pontos de conexão da cidade com o mundo, está o campus de uma universidade federal, com cursos de Artes, Letras e Humanidades, incluindo Jornalismo e Cinema.

O curso já formou cineastas como a dupla Glenda Nicácio e Ary Rosa, responsáveis pelos longas Café com Canela (2017) e a Ilha (2018), com reconhecidos elogios da crítica e prêmios em festivais. Os filmes exaltam sobretudo um olhar negro e feminino de encarar os dramas humanos.

Às margens do rio Paraguaçu e em seu rico patrimônio arquitetônico colonial, Cachoeira realiza anualmente a maior festa literária da Bahia, um festival de jazz, um encontro de mulheres percussionistas, um dos festejos de São João mais concorridos do Nordeste e uma importante comemoração religiosa, festiva e popular em devoção à Nossa Senhora D'Ajuda.

Irmandade da Boa Morte, Cachoeira (BA) - Jomar Lima - Jomar Lima
Irmandade da Boa Morte, Cachoeira (BA)
Imagem: Jomar Lima

A mais importante atração dos olhares do mundo para a cidade é a tradição mantida pela Irmandade da Boa Morte —ela ultrapassou os limites do Brasil e atrai todos os anos, em agosto, visitantes estrangeiros, em especial afro-americanos.

Eles vêm em busca das heranças africanas preservadas na cidade e inspiração dos ideais de liberdade, já que a irmandade foi uma das estratégias dos escravizados para a cooperação e compra da alforria. Já falamos da Irmandade aqui na coluna.

Cachoeira e a Independência do Brasil

A barbárie não combina com uma cidade que, ao longo da história, oferece mostras de humanismo e civilidade. Todo ano em 25 de junho, Cachoeira se torna capital do estado da Bahia. O decreto de 2007 é um reconhecimento pelo importante papel exercido por Cachoeira nas lutas pela independência do Brasil do domínio português, travadas em território baiano.

Em 25 de junho de 1822, a cidade já havia conclamado Dom Pedro imperador do Brasil, se rebelando contra o poder de Portugal. A Coroa não aceitou e o povo baiano, liderado pelas tropas cachoeiranas, precisou lutar para expulsar o exército lusitano, fato consumado em 2 de julho de 1823.

Ou seja, antes e depois do 7 de setembro e do Grito do Ipiranga, muito sangue jorrou no Recôncavo Baiano e em Salvador pela independência do Brasil.

Cachoeira é parte fundamental dos nossos sonhos por liberdade, por justiça e por soberania popular. Defender a prefeita Eliana Gonzaga é proteger a nossa democracia e um recado importante para que todas as mulheres brasileiras continuem na política, sem medo

Que haja justiça aos responsáveis pelos crimes para que continuem valendo, em Cachoeira e no Brasil, os versos do hino ao Dois de Julho, oficializado como o Hino da Bahia:

"Nunca mais o despotismo regerá nossas ações. Com tiranos, não combinam, brasileiros corações."

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL