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André Santana

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

BBB21: 5 momentos em que o reality provocou o debate sobre o racismo

"As pessoas falam "ah é mimimi" estão cansadas de ouvir isso? Eu estou cansada de ter que falar também. Se é cansativo para vocês ouvirem, eu estou cansada de viver. Eu estou cansada de ficar explicando isso pra todo mundo?", desabafou Camilla de Lucas, durante caso de racismo no #BBB21 - Reprodução/Globoplay
"As pessoas falam 'ah é mimimi' estão cansadas de ouvir isso? Eu estou cansada de ter que falar também. Se é cansativo para vocês ouvirem, eu estou cansada de viver. Eu estou cansada de ficar explicando isso pra todo mundo?", desabafou Camilla de Lucas, durante caso de racismo no #BBB21 Imagem: Reprodução/Globoplay
André Santana

André Santana é jornalista, cofundador do Instituto Mídia Étnica e do portal Correio Nagô

Colunista do UOL

09/05/2021 04h00

A edição 21 do Big Brother Brasil terminou dia 04, cumprindo sua função de 100 dias de entretenimento para o país confinado e aterrorizado pelos óbitos da pandemia. Também garantiu o retorno financeiro para emissora, dada a repercussão do programa e volume de anunciantes.

A decepção fica para aqueles que consideram possível que um programa nestes moldes possa resolver, ou mesmo atenuar, os problemas sociais. A expectativa de que a edição deste ano, que reuniu mais pessoas negras, poderia contribuir para o enfrentamento ao racismo é logo frustrada pela reação da sociedade aos temas abordados pelo programa.

Nas redes sociais, o engajamento às polêmicas produzidas no reality revelam os discursos preconceituosos tão cotidianos.

Isso explica, em parte, os recordes de rejeição a participantes negros, como Karol Conká e Nego Di, a impaciência desproporcional com a militante Lumena e a falta de empatia com a denúncia de racismo feita por João.

O pódio final até demonstra uma ligeira curva ao padrão normativo da televisão brasileira, tendo uma nordestina como campeã, uma mulher negra como vice campeã e um artista 'desconstruído' em terceiro lugar. Incluindo entre os finalistas o 5º e o 4º colocados, a diversidade se amplia com a cantora de ascendência negra e indígena e o gay, negro e nordestino, sem dúvidas, o protagonista desta edição.

O BBB não tem o poder (nem é a intenção da emissora) de abalar as estruturas racistas do país. Mas a repercussão do programa funciona como importante termômetro dos passos dados e dos entraves ao avanço da luta antirracista.

Selecionamos 5 momentos que mostram como o elenco, cuidadosamente escolhido, cumpriu bem a missão de levar para a atração os conflitos raciais que têm provocado a sociedade a rever conceitos, práticas e comportamentos.

  1. Colorismo: antes de estrear, o BBB21 já colocou em questão a ideia de uma homogeneidade entre as pessoas negras. Bastou o anúncio dos participantes, para começarem as especulações sobre quais eram realmente negros. Como esta coluna já havia antecipado, o programa ajudou a mostrar que nem "todo preto se parece". Entre os negros, há diversidade de ideias, posicionamentos políticos, caráter, gostos e cores. Os tons de pele e texturas dos cabelos são diversos como as nossas origens étnicas. Preso a estereótipos, o brasileiro não está acostumado com essa diversidade. Dentro da atração, participantes chegaram a questionar a negritude de Gilberto. 'Teve alguém que uma hora disse 'cara, tu é preto' e ele acreditou, porque não é possível', ironizou o 'inimigo do riso' Nego Di. Sim, é possível que a 'descoberta' seja a partir da nomeação feita por outro, nem sempre de forma amorosa. A intensidade do racismo é proporcional à quantidade de melanina e dos traços fenotípicos. O racismo brasileiro pode até iludir os de pele menos retinta, mas algum racista saberá diferenciá-lo.
  2. Intolerância religiosa: entre as religiões mais afetadas pela discriminação estão as de origem afro-brasileira, como o Candomblé e a Umbanda. Invasões de espaços sagrados, insultos em vias públicos e até agressões físicas são as manifestações do racismo religioso. No programa, essa prática se expressou em comentários jocosos contra a fé nos Orixás, publicamente declarada pelo ator Lucas Penteado. "Eu xangozei", disse o '(des)humorista' Nego Di, fazendo um trocadilho desrespeitoso com o orixá Xangô, para riso da trupe formada por Projota, Karol Conká e até Lumena, que também se declarou do Candomblé. Lucas, que teve sua fé questionado e chegou a ser xingado de demônio no programa, gravou um vídeo para o documentário "A vida depois do tombo', da Globoplay, sugerindo que a rapper Karol Conká, sua maior algoz no reality, conversasse com Deus. "Ele é o melhor amigo de todo mundo. Ele vai te ajudar. Deus te abençoe".
    Lucas Penteado grava depoimento para Karol Conká em documentário - Reprodução/Globoplay - Reprodução/Globoplay
    Lucas Penteado grava depoimento para Karol Conká em documentário
    Imagem: Reprodução/Globoplay
  3. Um suposto caso de 'racismo reverso' no programa gerou uma denúncia na Delegacia de Crimes Raciais contra a Dj Lumena Aleluia. Ao comentar sobre dos privilégios da 'branquitude' da atriz Carla Diaz, a baiana foi acusada de "fala pejorativa e ofensiva generalizada à raça branca". A própria Carla usou as redes sociais para negar ter sido vítima. "Acho importante afirmar aqui que racismo reverso não existe! Por favor, vamos ler, vamos nos informar, a internet está aí pra isso", disse a atriz. O caso ganhou ainda mais repercussão quando a apresentadora Ana Maria Braga criticou as falas de Lumena, apontando o tal 'racismo reverso'. Depois, a apresentadora pediu desculpas pelo que disse por desconhecimento sobre a temática. Ana Maria reconheceu: "A definição de racismo não se limita a cor da pele. Racismo é um sistema de opressão e, para ter racismo, tem que ter poder. Negros não têm poder institucional para serem racistas contra brancos".
  4. As falas de Carla Diaz e de Ana Maria Braga reforçam a importância do posicionamento de pessoas brancas diante do racismo. Os negros, como principais vítimas, não podem ser os únicos responsáveis por dar respostas em situações de preconceito racial. Já é hora dos antirracistas, especialmente os que possuem mais acesso à informação, buscarem o conhecimento para reagirem contrários a essas práticas. Neste sentido, um momento importante desta edição do BBB foi a conversa do apresentador Tiago Leifert com o participante Rodolffo, "de homem branco para homem branco".
    "Um cabelo black power, que é o cabelo do João é mais que um penteado, é um símbolo de luta, de resistência", explicou. Um dos privilégios da branquitude é o direito de ser escutado. O Brasil ouviu e entendeu o recado dado por Leifert ao cantor sertanejo e o elogiou bastante. Talvez com mais brancos comprometidos com esta postura, talentos como os de Lumena e de Camilla de Lucas não precisem ser limitados a esta pauta. "Estou cansada de ficar explicando", desabafou emocionada a influenciadora digital durante o episódio.
    BBB 21: João Luiz e Gilberto conversam no quarto cordel - Reprodução/Globoplay - Reprodução/Globoplay
    BBB 21: João Luiz e Gilberto conversam no quarto cordel
    Imagem: Reprodução/Globoplay
  5. Falamos também aqui na coluna sobre o racismo recreativo contra o professor João Luiz e de que ninguém tem mais obrigação de tolerar piadas e comentários preconceituosos. Chega de paciência com racistas. Entretanto, nem Rodolffo entendeu a carga ofensiva da sua fala, nem boa parte dos fãs do programa, que aproveitou a primeira oportunidade para eliminar João, como castigo pela coragem do professor em denunciar o racismo do qual foi vítima. Essa turma, que usou a internet para acusar João de 'mimimi' deve ter se divertido bastante nesta quinta-feira, 06, quando o presidente Bolsonaro associou o cabelo crespo de uma pessoa a piolhos e baratas. A edição do BBB acaba, uma nova começa, e nós pretos continuamos emparedados ao racismo. Nenhum de nós está imune. O Brasil está lascado!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL