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André Santana

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

CPI da Covid: Médica ativista cobrará responsabilidade por mortes evitáveis

Depoimento do ex-ministro Eduardo Pazuello foi marcado por omissões e mentiras  - Sergio Lima/AFP
Depoimento do ex-ministro Eduardo Pazuello foi marcado por omissões e mentiras Imagem: Sergio Lima/AFP
André Santana

André Santana é jornalista, cofundador do Instituto Mídia Étnica e do portal Correio Nagô

Colunista do UOL

23/05/2021 04h00

A CPI da Covid não se resumirá apenas a falsos testemunhos, intoleráveis desconhecimentos e indiferença diante da gravidade da pandemia.

Convocada para a CPI (confirmada, mas ainda sem data), a diretora-executiva da Anistia Internacional no Brasil, Jurema Werneck, revelará, com dados e informações técnicas, como a falta de prioridade à ciência e aos direitos humanos resultou em mortes evitáveis.

Os depoimentos à CPI da Covid tem confirmado o que boa parte da população já sabia: a total falta de capacidade da equipe do governo Bolsonaro para lidar com a pandemia, e como o negacionismo orientou as ações que permitiram o país perder mais de 440 mil vidas.

As mentiras facilmente detectadas e o evidente despreparo reforçam que o Brasil poderia ter impedido tantos óbitos. Para isso, o presidente teria que ter cumprido uma promessa de campanha: a escolha de ministros por critérios técnicos.

Obscurantismo versus Ciência

Diferentemente do general Eduardo Pazuello, que sem entender nada sobre saúde deixou o ministério em março com a "missão cumprida" e a escandalosa marca de 300 mil óbitos por covid, Jurema Werneck tem uma trajetória de estudos e militância pela saúde pública.

Jurema Werneck - Divulgação - Divulgação
Jurema Werneck: "Mortes evitáveis podem ser responsabilizadas"
Imagem: Divulgação

Em 1992, ela ajudou a criar, junto com outras ativistas antirracistas, a organização não-governamental Criola, que atua pelos direitos das mulheres e das comunidades historicamente discriminadas, contribuindo para a elaboração de políticas públicas de equidade de gênero e raça.

Médica formada pela UFF (Universidade Federal Fluminense), com mestrado e doutorado pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), Jurema foi conselheira nacional de saúde entre 2007 e 2012 e coordenou a Conferência Nacional de Saúde, em 2012.

Um encontro representativo de um país que consolidava a democracia com a escuta aos diferentes grupos interessados em saúde, cuidado e atendimento amplo e universal.

Entre suas publicações, fruto de pesquisa sobre a saúde pública no Brasil, está "O livro da saúde das mulheres negras: nossos passos vêm de longe", entre outros trabalhos.

Representando a Anistia Internacional no Brasil desde 2017, Jurema vem atuado na discussão de pautas como a devastação do meio ambiente, a violência policial nas favelas e o genocídio contra povos indígenas.

Possui o conhecimento de quem acompanha de perto os graves problemas de violação aos direitos humanos que, nesta pandemia, potencializaram a letalidade do vírus.

Mortes Evitáveis

Em artigos e entrevistas, a defesa do SUS (Sistema Único de Saúde) —conquista "daqueles que vivem a experiência de desassistência, da negligência e do descaso", amparados pela Constituição de 1988, que estabeleceu a saúde como um direito de todos e uma obrigação do Estado.

Da posição de quem conhece o SUS, com suas dificuldades e limitações, a pesquisadora sabe que o Brasil tinha inteligência e experiência em saúde pública suficientes para enfrentar essa pandemia muito melhor do se vê neste governo e se confirma na CPI.

Jurema Werneck coordena o Movimento Alerta que reúne, além da Anistia Internacional, organizações como a OAB, Instituto Ethos, Oxfam, SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), sindicatos de médicos, entre outras, que buscam consolidar dados sobre a pandemia no Brasil.

Em recente entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, a médica prometeu apresentar aos senadores, durante a sessão na CPI da Covid, dados de um estudo encomendado pelo Movimento Alerta a pesquisadores da USP, Uerj e UFRJ, que revelam o que poderia (e ainda pode) ser feito para evitar tantas mortes pelo coronavírus.

"Mortes evitáveis podem ser responsabilizadas", afirmou.

Procurada pela coluna, Jurema Werneck não antecipou informações sobre a participação na CPI, apenas confirmou que o estudo está sendo finalizado e que o Movimento Alerta ainda vai aprofundar as análises dos resultados.

"O propósito das organizações que se reúnem no grupo do Alerta é apontar caminhos para salvar vidas", concluiu.

A expectativa é de que a presença de Jurema Werneck na CPI da Covid, além de substanciar os crimes cometidos na gestão da pandemia, jogará na cara do país os danos nefastos ao criminalizar defensores dos direitos humanos e entregar o poder àqueles que não tem compromisso com a vida.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL