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André Santana

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Dia dos Namorados: Amor entre pessoas negras é ato político contra racismo

Lázaro Ramos e Taís Araújo: casal é uma das poucas referências de afetividade negra na tevê brasileira - Reprodução/Instagram
Lázaro Ramos e Taís Araújo: casal é uma das poucas referências de afetividade negra na tevê brasileira Imagem: Reprodução/Instagram
André Santana

André Santana é jornalista, cofundador do Instituto Mídia Étnica e do portal Correio Nagô

Colunista do UOL

06/06/2021 04h00

Dia 12 de junho está chegando e as imagens de casais apaixonados invadem a tevê, outdoors, páginas de revistas e as redes sociais, estimulando a compra e troca de presentes no Dia dos Namorados.

Essas campanhas deixam mais uma vez evidente a forma como o racismo impede que a publicidade, e as produções de comunicação em geral, valorizem o amor entre as pessoas negras. Mesmo com avanços, as campanhas publicitárias deste período desprezam a possibilidade de afeto de casais negros.

Este ano, algumas marcas incluíram a diversidade sexual, com casais homoafetivos, e já se nota a presença de pessoas negras em relacionamentos inter-raciais. O que parece mesmo interditado é que uma pessoa negra ame outra pessoa negra.

"Reaja à Violência Racial: beije sua preta em praça pública"

Em 1991, o verso do poeta Lande Onawale, ainda com o pseudônimo Ori, estampou a capa de uma das edições do jornal do MNU (Movimento Negro Unificado).

Foi o primeiro poema publicado do escritor e compositor baiano que notabilizou-se por expressar, com talento estilístico e equilíbrio literário, as dores, os amores e as esperanças das experiências negras no Brasil.

Nos livros do autor (O Vento, Sete: Diásporas Íntimas, Kalunga, e Pretices e Milongas), e em poemas que integram coletâneas como os Cadernos Negros, do Quilombhoje, está o registro poético do amor que a mídia tenta esconder.

Wladia Goés e Gui Alcântara - Reprodução Instagram - Reprodução Instagram
A figurinista e produtora de moda Wladia Goés e o mestre de capoeira e professor de educação física Gui Alcântara: casal compartilha cotidiano de afetos em perfil no Instagram
Imagem: Reprodução Instagram

O verso de Lande tornou-se emblemático ao denunciar a urgência em dar visibilidade às demonstrações de carinho e afeto na comunidade negra. Também por alertar para a força desta ação de insubordinação ao discurso racista que tenta apagar essas imagens, seja com a violência física, seja com a ausência midiática.

O poema inspirou em 2006 uma campanha do Instituto Mídia Étnica, que promoveu um "beijaço" de casais negros em uma praça pública de Salvador, valorizando o amor entre amantes de pele escura não registrado pelas lentes midiáticas.

Em 2021, esse beijo ainda é raro nas campanhas publicitárias.

Marcas ignoram mulheres negras

Esta semana, uma badalada marca de roupas e acessórios de moda lançou um clipe de beijos de casais famosos, de várias idades, incluindo gays, lésbicas e homens negros com suas parceiras não negras. Faltou, mais uma vez, a mulher negra.

O estímulo à diversidade promovido pela marca não conseguiu enxergar as mulheres negras como dignas de receberem beijos e outros afetos românticos.

Filme Carnaval - Divulgação/Netflix - Divulgação/Netflix
Filme valoriza música e cultura das ruas de Salvador, mas ignora o afeto entre pessoas negras
Imagem: Divulgação/Netflix

A solidão da mulher negra, denunciada pelo feminismo negro, encontra nos meios de comunicação um espaço de propagação destas ausências e atualização das invisibilidades.

Para confirmar, basta tentar listar exemplos de casais negros em produções de grande audiência da televisão brasileira, como telenovelas e séries.

As poucas atrizes negras incorporadas nessas narrativas, quando vivem romances, formam casais inter-raciais. Ou ficam sozinhas, aplaudindo as histórias de amor das protagonistas brancas. Aliás, nem quando são protagonistas recebem tratamento diferente.

Até no Carnaval de Salvador?

Acaba de estrear o filme Carnaval, uma produção da Netiflix ambientada na festa de rua da Bahia.

Com belas imagens da cidade e da multidão aglomerada (fortes gatilhos em tempos de isolamento), aborda temas atuais do universo das redes sociais, como a busca desenfreada por seguidores e a cultura do cancelamento.

Contudo, a animada aventura juvenil de quatro amigas que desembarcam em Salvador para curtir a chamada "maior festa popular do mundo" termina como as novelas e propagandas do Dia dos Namorados.

Há diversidade de romances, o que inclui casal de nerds, gays e até trisal, só não tem par romântico para a única preta da história.

Logo em Salvador, com uma imensa população de homens e mulheres negras que adorariam apresentar a cidade e seus encantos para a bela veterinária esotérica da trama, interpretada pela atriz Bruna Inocencio.

Quem tem o privilégio de andar pela cidade se encanta com as demonstrações de afeto entre as gentes negras. Nos momentos de festa, como o Carnaval, o clima de carinhos e libido se intensificam.

Uma potente energia de liberdade e de existência que as narrativas midiáticas racistas não se interessam em acreditar.

O máximo de diversidade que a mídia em geral aceita são personagens como a influenciadora Nina, do filme Carnaval, interpretada por Giovana Cordeiro, atriz que possui 'passabilidade racial', o que permite que seja disputada pelos galãs da história.

O filme da Netflix, que chega em um momento de consolo para os órfãos do Carnaval e dos festejos de São João cancelados pela pandemia, poderia ser uma oportunidade para que casais negros se vissem representados na tela.

Os efeitos da ficção (até mesmo na publicidade) não se limitam ao estímulo ao consumo. Podem informar, inspirar mudanças de comportamento, estimular trocas de afetos e a valorização do amor entre pessoas negras, uma arma poderosa contra o racismo.

No dia 12 de junho, já que não é possível ocupar as praças públicas, que as redes sociais sejam invadidas por romances cheios de melanina. Porque existem, porque importam.

Amor é um ato político. O amor negro é uma urgência civilizatória.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL