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André Santana

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Falso elogio a 'sinhás pretas' busca tornar negros cúmplices da escravidão

Personagem de Roberta Rodrigues em Nos Tempos do Imperador, Lupita alimenta em 2021 o desejo colonial de trair os negros e explorar a mão de obra escravizada - Reprodução / TV Globo
Personagem de Roberta Rodrigues em Nos Tempos do Imperador, Lupita alimenta em 2021 o desejo colonial de trair os negros e explorar a mão de obra escravizada Imagem: Reprodução / TV Globo
André Santana

André Santana é jornalista, cofundador do Instituto Mídia Étnica e do portal Correio Nagô

Colunista do UOL

30/09/2021 15h39

Ao se ler o texto "Luxo e riqueza das 'sinhás pretas' precisam inspirar o movimento negro", publicado pela Folha de S. Paulo na quinta-feira (29), a primeira impressão é de que o autor estava inspirado pelo enredo da telenovela Nos tempos do Imperador, que vem suavizando a tragédia da escravidão no Brasil.

Mas é do livro "As Sinhás Pretas da Bahia: suas escravas, suas joias", de Antônio Risério, que o jornalista Leandro Narloch retira munição para sugerir um período de oportunidades e prosperidades para pessoas negras.

Um delírio racista que se mantém no Brasil por uma militância contrária às poucas conquistas de cidadania negra e que ganha força em jornais, produtos televisivos e até em livros infantis.

Ao se filiar ao mesmo pensamento negacionista da telenovela, tão em voga na política brasileira, o artigo cumpre duas funções inúteis, para dizer pouco.

A primeira é de minimizar a violência do sistema escravista contra a população negra, utilizando-se de exceções dentro do modo de produção que tinha toda sua engrenagem baseada na exploração da mão de obra não remunerada de gente negra, sequestrada do continente africano.

A segunda, e mais cruel, é de colocar pessoas negras como cúmplices dessa lógica de dominação, que mantém sua estrutura bem alicerçada até os dias de hoje, gerando uma condição de miséria e de violação de direitos aos negros.

Capitalismo e racismo se retroalimentam

Se o capitalismo não estivesse associado ao racismo e ao sistema escravagista, como justificar que a alegada riqueza acumulada por essas mulheres não tenha gerado para seus descendentes condições materiais mais dignas?

Se eram tão numerosas as "sinhás pretas", com suas joias e escravos, e se o sistema é igualitário em oportunidades, por que no século 21 a pobreza no Brasil tem cor e atinge prioritariamente mulheres negras?

Ao contrário disso, os descendentes dos imigrantes europeus, "cuja maioria chegou faminta por aqui", como lembra Narloch, hoje se alimenta de modo muito mais farto, seja de comida, de direitos e, principalmente, de poder econômico, político e midiático. Encontrando, inclusive, espaço privilegiado para narrar histórias que visam a manutenção da lógica racista e colonial da escravidão.

O que não está escrito no artigo da Folha é que, para cada mulher negra que conseguia ganhos após intenso trabalho nas ruas dos centros urbanos, comercializando principalmente alimentos, havia milhares de homens brancos, donos de escravizados, que acumulavam suas fortunas explorando a força escrava e o comércio (e tráfico) de pessoas.

Muitos, inclusive, beneficiando-se diretamente da ação dessas mulheres, já que algumas precisavam dividir seus ganhos com os senhores.

O texto também não considera toda a política institucional de apoio aos imigrantes, desenvolvida pelo governo brasileiro na entrada do século 20 para garantir que europeus e seus descendentes prosperassem nestas terras e usufruíssem das condições preparadas pela escravidão.

Quem se interessa pelo protagonismo negro são os próprios negros

A complexidade do modo de produção escravista no Brasil, último país das Américas a abolir esse sistema, tem sido enfrentada com honestidade por historiadores e intelectuais negros já faz tempo.

A história das "escravas de ganho" também chamadas "ganhadeiras" já foi explorada em pesquisas sérias, que revelam as estratégias dessas mulheres diante de uma sociedade totalmente contrária à sua dignidade e ascensão. E como a exceção dessas trajetórias reafirma a regra de submissão e manutenção da miséria entre os negros.

Também é fruto do empenho de pesquisadores e do conjunto de entidades do movimento negro a valorização do protagonismo de pessoas negras no seu processo de libertação e na construção da sua cidadania.

Irmandade da Boa Morte, Cachoeira-BA, em 2021 - Jonaire Mendonça - Jonaire Mendonça
O empenho das 'escravas de ganho' possibilitou a criação de irmandades negras como a Boa Morte (foto), Rosário dos Pretos e Sociedade Protetora dos Desvalidos, que garantiram a alforria de escravizados.
Imagem: Jonaire Mendonça

As tais "maturidade e conciliação" sugeridas por Narloch podem ser trocadas por "insurgências intelectuais e epistemológicas" conquistadas arduamente por gente negra que se tornou sujeito da sua própria história, desprezando a tutela colonial da escrita branca da história.

É graças a este empenho que hoje sabemos dos levantes negros por liberdade e contra a escravidão, da saga de Búzios, Malês e da resistência dos quilombos.

Se não estivéssemos preocupados em valorizar essas histórias de protagonismo negro, a narrativa da abolição ainda estaria centrada na benesse da monarquia. Mas descobrimos o legado de Luiz Gama, José do Patrocínio, Zumbi e Dandara de Palmares, Tereza de Benguela e de tantas e tantos que estiveram nas trincheiras contra o poder colonial.

Essas produções podem ser facilmente acessadas em canais como o projeto Nossa História, da Rede de Historiadoras Negras e Historiadores Negros, que vem divulgando produções acadêmicas no Instagram e YouTube. Está tudo muito bem organizado neste link: https://linktr.ee/historiadorxsnegrxs

Ao invés de se ocupar em contar histórias de gente negra, Narloch contribuiria muito mais se utilizasse seu prestigiado espaço dado pela imprensa para falar como os europeus e seus descendentes construíram mecanismos para impedir a prosperidade econômica dos negros e para manter os regimes de privilégios brancos até os dias de hoje.

Ajudaria muito a nos fazer entender por que o Brasil é rico e próspero para tão poucos e miserável e violento para a maioria da população, especialmente os descendentes daquelas mulheres negras, que enfrentaram com dignidade e dureza o horror da escravidão.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL