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André Santana

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'Racistas não passarão': Racismo no metrô é reação a autoestima dos negros

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André Santana

André Santana é jornalista, cofundador do Instituto Mídia Étnica e do portal Correio Nagô

Colunista do UOL

06/05/2022 12h28

A reação de indignação dos usuários do metrô de São Paulo, que na última segunda-feira (2), testemunharam um caso de injúria racial é uma esperança no combate ao racismo.

Uma mulher negra, de 35 anos, ouviu de outra passageira branca e loira, que tomasse cuidado com seu cabelo, que "poderia passar alguma doença", segundo denúncia registrada em delegacia.

A vítima reagiu à agressão racista e despertou a atenção de usuários do metrô, que se revoltaram com a fala preconceituosa e passaram a acusá-la de racista.

"Racistas não passarão", gritava a multidão, conforme vídeos que circulam pela internet.

Os passageiros impediram a saída da agressora até a chegada da polícia à estação Vila Mariana, na zona sul paulista.

Injúria é crime

Ao associar o cabelo da mulher negra ao risco de doença, ofendendo a sua honra a partir de um traço da sua origem étnica, a mulher cometeu o crime de injúria racial, previsto no Código Penal, com possível pena de reclusão de um a três anos.

Além da exposição pública da agressão, os passageiros confirmaram o ocorrido em testemunho nos jornais e na própria polícia.

Essa atitude da população demonstra que a rejeição ao racismo vem conquistando cada vez mais pessoas dispostas a agirem. Não basta se dizer antirracista, é necessário atuar contra o racismo.

Neste sentido, há muito a ser feito e a contribuição de cada um é fundamental para eliminar essa forma de violência e segregação.

Paulo André, o PA, no Baile da Vogue 2022 - Roberto Filho/Brazil News - Roberto Filho/Brazil News
Paulo André, o PA, no Baile da Vogue 2022
Imagem: Roberto Filho/Brazil News

A vítima desta situação se sentiu acolhida e fortalecida pelo apoio popular, diferentemente do que ocorre no dia a dia, quando a pessoa preta, ao denunciar o incômodo com algum tipo de discriminação, é desacreditada e acusada de mi mi mi.

Quanto mais denúncias e exposições públicas, mais inibidos ficarão aqueles acostumados a discriminarem a partir de comentários, falsas piadas ou mesmo ofensas diretas.

A aceitação e orgulho pelas características físicas de origem africana pela comunidade negra é uma longa construção que rompe com a lógica racista de associação a tudo que é ruim, feio, sujo e nocivo. Dentre esses elementos, os cabelos são um dos principais símbolos de auto-valorização e resistência.

A diversidade de penteados, tranças, adornos e turbantes revela o resultado positivo do histórico de militância negra e de incentivo à conscientização e conhecimento sobre suas origens e valor como povo.

Por isso incomoda tanto aos racistas uma pessoa negra assumindo seu cabelo crespo e ostentando o seu orgulho, contrariando o padrão eurocêntrico imposto pelo racismo. Trata-se de uma desobediência estética civilizatória e libertadora.

Nesta semana, um apresentador da Rede TV fez um comentário preconceituoso ao vivo, comparando a cadarços de sapato o penteado feito pelo velocista e finalista do BBB 2022, Paulo André, para participar do concorrido Baile da Vogue.

Imagine o quanto de ressentimento há em uma mente racista que tem de presenciar o sucesso de um homem negro, atleta já premiado, que conquistou o país pela sua beleza e seu jeito alegre, carinhoso e amável com que tratou a todos durante o reality show.

O carisma e o encanto de Paulo André são tudo que o ideal racista não espera enxergar em uma pessoa negra. Por isso a ofensa do apresentador que não se destaca nem pela beleza, nem pelo talento, nem pela popularidade e nem por nada.

As palavras agressivas da mulher do metrô ou do cara da tevê expressam o incômodo que não conseguem esconder diante da autoestima de uma pessoa preta que não tem vergonha de ostentar seu cabelo, sua beleza e seu orgulho.

Por um lado, os racistas estarão cada vez mais incomodados, agressivos e explícitos em suas ofensas.

Por outro lado, onde está a maioria populacional deste país, cresce o contingente de pessoas pretas não mais dispostas a aceitarem as definições de lugar, de modos e de comportamentos ditados pelo padrão branco.

Cabelos crespos desfilarão pelas cidades, nos bailes e nos vagões. Já os racistas, como gritaram os usuários do metrô de São Paulo, "não passarão".