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André Santana

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Jacarezinho e Marielle: destruição de placas põe polícia contra população

11.mai.2022 - Memorial no Jacarezinho foi destruído por policiais - Reprodução/Polícia Civil RJ
11.mai.2022 - Memorial no Jacarezinho foi destruído por policiais Imagem: Reprodução/Polícia Civil RJ
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André Santana

André Santana é jornalista, cofundador do Instituto Mídia Étnica e do portal Correio Nagô

Colunista do UOL

14/05/2022 04h00

A demolição pela Polícia Civil do Rio de Janeiro do monumento na Favela do Jacarezinho em memória aos mortos pela operação policial mais letal já ocorrida no estado, realizada em maio do ano passado, acirra ainda mais um inútil conflito entre as forças de segurança e a população.

O monumento trazia placas com os nomes dos 28 mortos —inclusive um policial civil baleado durante a operação.

Os deputados Daniel Silveira e Rodrigo Amorim exibem placa quebrada de Marielle durante campanha eleitoral - Reprodução/Twitter - Reprodução/Twitter
Os deputados Daniel Silveira e Rodrigo Amorim exibem placa quebrada de Marielle durante campanha eleitoral
Imagem: Reprodução/Twitter

A cena repete a truculência protagonizada em 2018 pelo ex-PM e hoje deputado federal Daniel Silveira (PTB-RJ), que destruiu uma placa em homenagem à vereadora carioca Marielle Franco, brutalmente assassinada no exercício do mandato. O crime foi um golpe à democracia.

Além de atentados contra o direito à memória em uma tentativa de apagamento da lembrança dos fatos trágicos, essas ações reforçam uma ideia de polícia contrária aos direitos humanos e indiferente ao sofrimento que aflige cidadãos diante de uma política de segurança pública que não protege ninguém.

Agentes de segurança e moradores de comunidades pobres são as principais vítimas da incapacidade do Estado brasileiro em garantir a proteção da vida.

'Também morre quem atira'

Entre os mais de 41 mil brasileiros assassinados por ano, estão trabalhadores da segurança pública e seus familiares. O Brasil está entre as nações que possuem as polícias mais letais, mas também a que mais morre, em proporções de guerra.

Na última semana, em Salvador, três policiais militares foram mortos em menos de 48 horas.

Alexandre Menezes, Shanderson Lopes Ferreira e Victor Vieira Ferreira Cruz atuavam na mesma companhia. Alexandre foi baleado em uma operação. Já os outros dois foram assassinados quando retornavam, sem uniforme, do enterro do amigo.

Na busca pelos responsáveis por esses assassinatos, a polícia baiana identificou ao menos quatro suspeitos que foram baleados em ação policial. Dois deles morreram e os outros dois estão sob custódia.

Em protestos contra a morte dos PMs, associações policiais e parlamentares criticaram as condições de trabalho oferecidas pelo governo da Bahia.

Junho Marrom e Dia da Vitimização Policial

O deputado estadual Capitão Alden (PL-BA), autor da lei que instituiu o Dia da Conscientização, Combate à Intolerância e a Vitimização Policial na Bahia, celebrado em 9 de junho, reclama que a segurança pública "está entregue às traças" no estado.

Vivemos hoje em um estado que é um dos mais perigosos do Brasil. Estamos perdendo muitos irmãos de batalha por conta da falta de estrutura, de debates, de valorização e responsabilidade."
Capitão Alden, deputado estadual (PL-BA)

A data foi proposta em 2020 e faz referência ao cabo PM Gustavo Gonzaga da Silva, assassinado por traficantes no bairro do Nordeste de Amaralina, em Salvador, quando se encontrava fora de serviço.

Alden propõe chamar o próximo mês de Junho Marrom, em referência à data, para promover o que chama de "ações de segurança, responsabilidade, respeito e luto".

Diante de uma situação que aflige diretamente militares e civis, a quem interessa promover conflitos e discursos que colocam em lados opostos as vítimas da criminalidade e do estado de insegurança?

Há quem encontre na origem da criação das forças militares razões para acreditar na incompatibilidade entre os interesses dos mais pobres e a defesa da propriedade e dos direitos das elites no poder. Mas há muitos que se dedicam, inclusive internamente, a promover a humanização das ações policiais, investindo em mais formações, diálogos e melhores condições de trabalho.

'Bolsonaro não gosta de gente, só de policiais'

Quando recentemente o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em uma fala equivocada da qual pediu desculpas, disse que o presidente Jair Bolsonaro (PL) não gostava de gente, apenas de policial, os bolsonaristas buscaram promover essa separação falsamente atribuída à esquerda.

Como se quem defende direitos humanos não desejasse uma polícia cidadã, parceira das comunidades e defensora da vida e dos valores democráticos. Esse deveria ser também o compromisso maior da instituição.

Como Lula explicou em seu pedido de desculpas, ele quis dizer o que todo mundo sabe e Bolsonaro não esconde sem o menor pudor: seu apreço pela barbárie, pela truculência, pelo confronto e pela violência como método. Foi ele, afinal, que em 2016, em um momento fundamental para a democracia brasileira, dedicou seu voto a um conhecido torturador.

Como profissionais que sabem a responsabilidade da missão que assumiram ao vestir a farda podem ter como representantes de visibilidade indivíduos truculentos, que não respeitam as instituições e os valores democráticos?

Em vez de agirem contra a memória e contra as reivindicações por direitos das comunidades mais pobres, o foco deveria ser a exigência por políticas de segurança pública sérias, responsáveis e inteligentes, algo que nem governantes progressistas, nem os que se dizem aliados dos militares conseguiram apresentar à sociedade.

Só assim poderiam evitar tantas mortes de civis e fardados.