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André Santana

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

É de Casa revive lógica racista da Tia Anastácia e Dona Benta na TV

A apresentadora Thalita Morete entregou a bandeja de cocadas para a convidada Silene servir - Reprodução/TV Globo
A apresentadora Thalita Morete entregou a bandeja de cocadas para a convidada Silene servir Imagem: Reprodução/TV Globo
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André Santana

André Santana é jornalista, cofundador do Instituto Mídia Étnica e do portal Correio Nagô

Colunista do UOL

15/06/2022 13h46

O que ocorreu no programa É de Casa, da TV Globo, quando uma apresentadora falou para uma convidada negra "servir todo mundo", revela o quanto a sociedade brasileira, em especial, a televisão, não deseja sair da lógica colonial que estabeleceu às pessoas pretas o lugar da servidão.

Dona Silene, da @cocadasdasilene, estava como convidada do programa, ensinando a receita que garante o seu sustento e o sucesso do seu negócio. Poderia ser tratada como uma chef ou uma empresária, ou simplesmente uma mulher, se a cor da sua pele não acionasse nas mentes racistas o desejo de mandar e de ser servida.

Assim, no ímpeto de manter a hierarquia racial do trabalho, a apresentadora toma o lugar de sinhá e ordena: "Vai fazer as honras da casa, vai servir todo mundo, Silene".

As apresentadoras brancas —tanto a que deu a ordem quanto as demais que riram, coniventes com a situação— só conseguirem enxergar a preta serviçal, parecida com as inúmeras imagens racistas reproduzidas pelos meios de comunicação e pela literatura e semelhante às trabalhadoras domésticas que elas, possivelmente, têm em suas casas.

Imagem colonial da Tia Anastácia

A branquitude tenta congelar as mulheres negras em posições coloniais e escravocratas incansavelmente reproduzidas nas telenovelas brasileiras, com suas inúmeras personagens de empregadas, oferecidas a talentosas atrizes negras.

Sem enredo, sem núcleo familiar, sem carga dramática, a única função dessas personagens sem nome é cumprir a mesma exigência feita à Dona Silene.

Nesta lógica midiática racista, todas as pretas funcionam como a tia Anastácia, do Sítio do Pica-Pau Amarelo, criada pelo escritor com ideias eugenistas Monteiro Lobato.

A sorridente cozinheira sabe preparar delícias, mas é alvo de xingamentos da boneca falante e dos demais personagens, que a tratam com menos dignidade que os seres fantásticos da obra. Até um sabugo de milho é melhor representado que a preta cozinheira, que nem recebe os méritos pelos pratos que prepara, afinal, para todos, as receitas são da Dona Benta.

Se fossem convidadas para o É De Casa, a branca Dona Benta estaria confortavelmente sentada no sofá junto às apresentadoras, sendo servida pela preta Anastácia.

E eu não sou uma mulher?

Sobre o episódio, a filósofa Katiúscia Ribeiro escreveu em suas redes sociais que, "quando as mulheres brancas atingirem tudo que esperam na hierarquia de opressão de gênero, mulheres pretas continuaram servindo, limpando para elas. Não existe sororidade na hierarquia racial".

Por mais que lutem por igualdade de direitos e de oportunidades, é difícil para certos grupos de poder —como a seleta posição de apresentadora de tevê, incluir as mulheres negras entre aquelas que merecem respeito.

O fato pode ser explicado pelo título de um dos livros da escritora negra feminista norte-americana bell hooks, falecida em 2021: "E eu não sou uma mulher?". O questionamento utilizado por hooks foi feito por Sojourner Truth, ativista afro-americana, em meio ao movimento de mulheres sufragistas e abolicionistas brancas no século XIX.

"Aqueles homens ali dizem que as mulheres precisam de ajuda para subir em carruagens, e devem ser carregadas para atravessar valas, e que merecem o melhor lugar onde quer que estejam. Ninguém jamais me ajudou a subir em carruagens, ou a saltar sobre poças de lama, e nunca me ofereceram melhor lugar algum! E não sou uma mulher? Olhem para mim? Olhem para meus braços! Eu arei e plantei, e juntei a colheita nos celeiros, e homem algum poderia estar à minha frente. E não sou uma mulher?"

Esse é um trecho da intervenção feita por Sojourner Truth, em 1851, em uma convenção feminista em Ohio (EUA).

A provocação ganhou repercussão no país e Sojouner tornou-se inspiração para as lutas por direitos civis da população negra, mas especialmente para o movimento das mulheres negras, que não encontraram ao longo da história acolhida para suas dores em lutas sociais centradas em questões de classe e gênero, que desprezaram a raça como fator de reforço das opressões.

Aprendizados no episódio

Em postagem nas redes sociais, a apresentadora Talitha Morete pediu desculpas a Dona Silene e ao público pela fala. Disse que quer transformar o episódio "em aprendizado e num compromisso de vigília antirracista constante".

Talitha aproveitou para agradecer ao colega de programa Manoel Soares pela sensibilidade e o cuidado com a Dona Silene. Manoel —único negro em cena ao lado de Silene— se levantou, pegou a bandeja da mão da doceira e, elegantemente, disse que Dona Silene não serviria a ninguém ali.

A atitude do apresentador, além de revelar a importância da presença de pessoas negras em todos os espaços de visibilidade e prestígio, demonstra que o racismo estrutural não pode servir de desculpas para ações individuais e conscientemente segregadoras, como a da apresentadora.

A atitude individual de Manoel Soares contrariou a "normalidade" da lógica racista da colega, das demais pessoas presentes, das diversas produções da emissora e das atitudes cotidianas da sociedade brasileira.

Contrariou o racismo.

Ele nos ensinou que cabe a cada um de nós o incômodo e a ação enérgica diante de um ato racista, aconteça onde for.