1ª vereadora quilombola de Salvador combate racismo nas pautas ambientais
Salvador abriga uma população de mais de 16 mil quilombolas, de acordo com o Censo 2022. Desses, mais de 5.000 vivem nas comunidades da Ilha de Maré, onde nasceu Eliete Paraguassu, 41 anos, a primeira quilombola eleita para a Câmara Municipal de Salvador.
Com a campanha "Mandato das Águas", ela recebeu 8.479 votos. Seu mandato pelo PSOL está entre os sete de partidos de esquerda, de um total de 43 vereadores eleitos na cidade.
Em seu mandado, promete lutar por políticas de meio ambiente que, segundo ela, não são priorizadas em nenhuma esfera de governo, mesmo com tantas tragédias ambientais.
"O desafio é transitar naquele espaço como mulher negra, marisqueira e quilombola, trazendo a pauta do combate ao racismo ambiental e do direito ao saneamento básico. São temas desafiadores", afirma Eliete, em entrevista para a coluna.
Filha de um pescador e de uma marisqueira, e mãe de dois filhos, a eleição de Eliete representa um marco não apenas para a população quilombola, mas para todas as comunidades tradicionais que lutam por seus direitos.
"Eu não estou só. Meu mandato é um movimento do povo das águas, das comunidades quilombolas, das mulheres marisqueiras, da pesca artesanal, das populações das ilhas, que sofrem a violência de um território localizado na Baía de Todos os Santos, cercado por cinco municípios e pelo maior complexo industrial da Bahia".
A exploração petrolífera na região impacta diretamente a saúde dos moradores, algo que Eliete denuncia como racismo institucional perpetuado não apenas pelas grandes empresas, mas também pelo poder público, tanto prefeituras como o governo do estado. "Somos a região de maior população negra da cidade e também a que apresenta os maiores registros de anemia falciforme e de câncer causado por metais pesados".
Violência política
Enfrentar interesses poderosos não é fácil. Eliete tem sido alvo de ameaças e intimidações, um risco comum para defensores dos direitos humanos e ambientais no Brasil. O país é um dos que mais registram violência contra ativistas comunitários, e a Bahia se destaca nestes dados negativos, em casos emblemáticos como os assassinatos de Mãe Bernadete Pacífico, líder quilombola morta em 2023, e de Nega Pataxó, liderança indígena assassinada em 2024.
"Desde que manifestei interesse em me candidatar, a violência política piorou. Fui alvo de emboscadas, sofri ameaças e precisei deixar o território por um tempo"
Ao assumir o mandato, Eliete consultou a Presidência da Câmara sobre possíveis medidas de segurança para vereadores, como carros blindados. "A resposta foi que nunca houve um vereador sob ameaça, por isso não havia um programa de proteção".
Apesar dos riscos, Eliete segue firme em sua luta, confiando no apoio comunitário, familiar e na rede de mulheres que a protegem na atuação nas áreas isoladas de manguezais.
"É preciso discutir Salvador para as mulheres e para sua população, para seus filhos e moradores, e não apenas para os visitantes".
Comunidades afetadas
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Sua eleição também coloca em debate a importância de se discutir o meio ambiente sob a perspectiva de quem nasceu e vive em uma comunidade que tem uma relação direta com o mangue e com a vegetação ao redor da Baía de Todos os Santos, a maior baía do país.
Ela chama atenção para o fato da cidade, que depende muito do turismo e tem como um dos atrativos a gastronomia de frutos do mar, não valorizar os pescadores tradicionais.
"A moqueca é um cartão-postal de Salvador, mas a cidade não dialoga com os pescadores e marisqueiras. Essa comunidade é invisibilizada. O poder público precisa entender que a pesca artesanal é turismo, mas também é economia, é trabalho, é cultura".
Na Ilha de Maré, onde mais de 90% da população se autodeclara negra, há graves problemas de degradação ambiental, causados pela poluição industrial e pelas grandes corporações e interesses econômicos. Eliete denuncia essas questões e defende a preservação do ecossistema local, além de lutar pelos direitos fundiários das comunidades quilombolas. Embora esses direitos estejam garantidos pela Constituição de 1988, a burocracia e a pressão de especuladores imobiliários frequentemente ameaçam essas populações.
"Além da falta de saneamento básico e da degradação ambiental, as ilhas sofrem com carências na educação e na saúde. Para se ter uma ideia, a equipe de [Estratégia] Saúde da Família só chegou na comunidade em 2020 devido à pandemia, e o primeiro posto de saúde foi inaugurado apenas em 2024. Para completar, os moradores que precisam de barcos para fazer a travessia pagam a tarifa de transporte público mais cara da cidade", pontua.
"É preciso ouvir as comunidades tradicionais, os guardiões da natureza, suas experiências e seus projetos de recuperação de áreas verdes, e não as expulsar para dar lugar a resorts e empreendimentos turísticos".
Há dois documentários sobre a trajetória de Eliete Paraguassu e sua dedicação à pauta ambiental e aos direitos das comunidades tradicionais: "Mulheres das Águas (2016)", de Beto Novaes, que já ultrapassou 1,2 milhão visualizações no Youtube, e "Assassino Invisível - Lixo Industrial", dos diretores Jan Willem Den Bok e Floor Koomen, lançado também em 2016.
Em meio à emergência da crise climática, a eleição de Eliete Paraguassu sinaliza a necessidade de que as vozes das comunidades tradicionais conquistem mais espaço na política. Seu mandato pode abrir caminhos para que mais líderes comunitários assumam posições de destaque e fortaleçam a luta por direitos, justiça social e sustentabilidade.
4 comentários
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Antonio Felicio Fegueredo Nunes
"È preciso ouvir as comunidades tradicionais" , bla, bla, bla. Conversinha que já encheu o saco.
Valter José Cruz
A eleição de Eliete Paraguassu representa uma vitória de uma população historicamente excluída das políticas públicas. Todo apoio a esse mandato.
Fernando Antonio Lara Pereira
A "qualidade" dela é ser quilombola... Papinho chato