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Bolsonaro apóia quem pede Exército nas ruas contra governadores

Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

02/04/2020 14h21

"Pode ter certeza de que a senhora fala por milhões de pessoas", foi a resposta dada pelo presidente Bolsonaro a uma professora de escola particular de Brasília que lhe pediu para colocar o Exército na rua para abrir o comércio, contra decisão de governadores sobre o isolamento social.

Depois de ouvir e concordar com a mulher, Bolsonaro colocou nas redes sociais o vídeo gravado no Alvorada, naquele "chiqueirinho" onde fica a sua claque e ao lado de jornalistas, que também foram atacados pela professora.

Dois dias depois de propor um pacto aos demais poderes no enfrentamento da pandemia do coronavírus, o presidente mostrou que continua dando mais confiança ao "gabinete do ódio", do filho Carlos Bolsonaro, do que à ala militar, que defende uma trégua na disputa com governadores.

"Estou aqui pedindo para o senhor: põe esses militares na rua. Põe, que esse governador do Distrito Federal já decretou mais um mês sem aula, sem nada. Abre esse comércio (...) Eu não quero dinheiro do governo, eu quero a minha vida normal. E esses governadores querem o quê. Eles têm o dinheiro deles. A gente tem o senhor, é isso que a gente tem. Por que querem derrubar o senhor? Não fala nada para essa imprensa, presidente", discursou a mulher, sob os aplausos da claque e a concordância de Bolsonaro.

Na véspera, o capitão presidente se viu obrigado a tirar do Twitter um vídeo fake sobre desabastecimento no Ceasa de Belo Horizonte, que funcionava normalmente. Depois, pediu desculpas, como fez aquele prefeito de Milão, quando a Itália já tinha mais de 4 mil mortos (hoje, são mais de 10 mil). .

Em plena campanha para desmoralizar o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, o presidente não perde uma oportunidade para defender o fim do isolamento horizontal recomendado pela OMS.

Mas é a primeira vez que concorda com quem pede para colocar o Exército nas ruas, o que parece ser o seu grande objetivo, em meio à crise que ele não consegue administrar.

Com isso, Bolsonaro conseguiu unir a direita e a esquerda contra ele, de Doria a Lula, de Ciro a Haddad, de Rodrigo Maia a ACM Neto, ao desafiar, ao mesmo tempo o Congresso e o STF, os governadores e os prefeitos e os principais veículos da grande mídia.

Vida que segue.

Balaio do Kotscho