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Lugar de repórter ainda é na rua? Quatro semanas entre quatro paredes

Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

06/04/2020 14h36

Uns vinte anos atrás, quando ainda não existia coronavírus e não se fazia reportagem por celular ou videoconferência, dois jovens jornalistas, Mauro Júnior e José Roberto de Ponte, publicaram um livro chamado "Lugar de repórter ainda é na rua", uma biografia sobre o autor deste Balaio.

Como é irônica esta vida: o título do livro é uma frase que eu repetia muito nas antigas redações, mas agora estou completando quatro semanas enfiado entre quatro paredes, sem por os pés nem no elevador, muito menos na rua.

Acho que não ficava tanto tempo sem sair de casa desde que nasci.

De manhã, antes mesmo de abrir o jornal e o celular, todo dia ponho o termômetro para ver se não estou com febre.

Passei a vida inteira viajando pelo Brasil e pelo mundo, sem medo de nada, atrás de histórias inéditas para contar nos jornais e revistas onde trabalhei, ou seja, todos os da grande imprensa.

Era um repórter andarilho por natureza. Passava em casa só para trocar de roupa.

Não parava na redação e não me conformava em ver colegas lendo relatórios e recortes de jornais antigos ou pendurados ao telefone (fixo) para fazer suas matérias.

Para sacanear, passava por trás deles e começava a latir. No susto, alguns jogavam o telefone para o alto.

O que eles diriam depois para seus entrevistados? Que havia cachorros na redação?

Falando sério, esse tempo de quarentena me fez pensar muito no futuro da nossa profissão.

Domingo à noite, ao ver meu amigo Ernesto Paglia fazendo uma bela reportagem para o "Fantástico", sem sair do escritório da casa dele, me dei conta de que um ciclo romântico se encerrou e o futuro tecnológico veio para ficar, mesmo depois que a pandemia for embora.

Daqui para a frente, que empresa jornalística vai querer investir em viagens para as equipes irem ver de perto, com os próprios olhos, para contar o que está acontecendo?

Com os novos equipamentos para fazer jornalismo a distância, os repórteres não precisarão mais gastar dinheiro com passagens de avião e hotéis, nem mesmo com táxis.

As grandes redações que enfeitam o cenário dos telejornais já podem ser desmontadas porque quase todo mundo agora vai ficar no popular home office, disputando espaço com mulher, filhos e cachorros.

Até âncoras famosos, como Boris Casoy e William Waack, já estão apresentando os jornais diretamente dos estúdios montados em suas casas.

Paglia e eu somos contemporâneos de um outro tempo, de tantas aventuras jornalísticas, em que os repórteres de antigamente tinham de sujar os sapatos para vencer obstáculos sem fim para cumprir a pauta, sempre correndo contra o tempo.

Algumas vezes, corríamos até risco de vida, sem exagero, mas não podíamos voltar para a redação sem a matéria.

Para chegar antes dos concorrentes ao local dos fatos, as empresas não economizavam recursos.

Fretavam aviões como quem chama hoje um Uber.

Certa vez, para chegar a uma cidade de Santa Catarina devastada pela enchente, na pressa de fazer a matéria a tempo de entrar na edição do dia, a equipe do Estadão simplesmente esqueceu o avião três dias no aeroporto, e o prejuízo foi grande, porque o fretamento cobrava por hora voada e parada.

Em grandes coberturas, como Copa do Mundo, conflitos, guerras, enchentes ou queimadas, naufrágios ou desastres de avião, não se economizava em gente nem em recursos colocados à disposição dos profissionais.

Agora, basta mandar um drone teleguiado para fazer as imagens e cobrir com um repórter doméstico ligado no celular e na internet. Só não pode faltar energia nas casas deles...

Fico pensando o que aconteceria com os grandes jornais, as redes de televisão e os portais se a internet entrar em colapso com tanta demanda nestes tempos de pandemia e confinamento.

O livro de Mauro Júnior e José Roberto de Ponte, que mereceu até entrevista no Jô Soares, de uma hora para outra, ficou obsoleto. Virou filme de época. Está na hora deles escreverem outro:

"Lugar de repórter é em casa"

Eu mesmo acho que já estou com o prazo de validade vencido.

Sou ainda do tempo em que se enviava matérias pelo telégrafo da Western, onde os repórteres brigavam por um lugar na fila dos correios, os fotógrafos tinham que montar laboratórios para revelar os filmes no banheiro do hotel e enviar seu material por um aparelho de radiofoto, enorme, barulhento e lento.

Fui um dos últimos repórteres a usar computador no falecido Jornal do Brasil e a recorrer a um gravador para entrevistar o grande cantador nordestino Patativa do Assaré, a pedido dele, pouco antes de sua morte.

Inconformado por me ver anotando suas respostas, em forma de verso, num caderno cheio de garranchos, ele mandou buscar um gravador na rádio da cidade, e me explicou:

"É que eu prezo muito as minhas palavras".

Agora, me vejo aqui enjaulado, tendo que escrever todo dia sobre assuntos tão desagradáveis como as últimas peripécias do capitão contra o mundo.

Sorte teve o lendário Clóvis Rossi, de longe o melhor e mais completo jornalista da minha geração, que foi embora daqui direto para o céu, no ano passado, sem aviso prévio, antes de ter que aprender a fazer reportagens sobre o coronavírus por videoconferência.

Vida que segue.

Balaio do Kotscho