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Contra a direção, dissidência do PT defende o "Fora Bolsonaro"

Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

11/04/2020 15h23

Não chega a ser uma grande novidade, mas o PT rachou após a decisão da Executiva Nacional, apoiada por Lula, que esta semana decidiu não aderir à campanha "Fora Bolsonaro" organizada pelos movimentos sociais e centrais sindicais.

O ex-deputado e ex-presidente nacional do PT José Genoíno e outros 40 deputados federais e membros do Diretório Nacional do PT lançaram neste sábado o manifesto "Em defesa da vida, Fora Bolsonaro!"

As lideranças das tendências mais à esquerda do partido afirmam no documento que "Fora Bolsonaro é a palavra de ordem já gritada a plenos pulmões nas principais cidades do Brasil, que expressa a única possibilidade de defender a vida do povo. Diante de tantos crimes e violências, é legítimo o direito de colocar abaixo um governo que pode levar à morte, por doença ou miséria, milhões de brasileiros e brasileiras."

A dissidência petista surge num momento em que as alas mais moderadas do PT e outras lideranças partidárias entendem ser esse o objetivo das seguidas provocações de Bolsonaro contra o isolamento social, para provocar o caos e fechar o regime.

Para não entrar nesse jogo, em seguidas entrevistas, Lula já defendeu que a prioridade agora é juntar forças para o combate à pandemia que avança pelo país e cobrar do governo medidas concretas para proteger os trabalhadores ameaçados pelo vírus e pelo desemprego.

Por não acreditar em mudanças na posição do governo, os dissidentes afirmam em seu manifesto que a atuação do presidente "é mercada por seguidos ataques ao isolamento social e pela adoção de medidas destinadas a proteger, acima de tudo e de todos, os lucros dos oligopólios bancários. Esse comportamento criminoso configura ato de sabotagem contra a saúde pública e a economia popular, representando o mais grave perigo ao povo e à nação em nossa história recente".

A posição da Executiva Nacional é que não há condições, no momento, com o Congresso, o STF e grande parte da população em quarentena, de promover manifestações contra o presidente e abrir um processo de impeachment, que o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, já descartou por enquanto, embora já tenha recebido várias representações.

Sem governo, com o presidente isolado e a oposição dividida sobre o que fazer, o país entra na próxima semana na fase mais crítica da pandemia, que já deixou mais de mil mortos e 20 mil infectados no país.

Em sua coluna deste sábado, na Folha, sob o título "Perto do precipício", Mônica Bergamo relata que a possibilidade de Jair Bolsonaro ampliar a lista de atividades essenciais "deixava parte do governo em tensão máxima na sexta."

"Daqui a pouco até zona de prostituição vão considerar essencial", disse à colunista um integrante da equipe de Bolsonaro.

No momento em que as taxas de isolamento vem caindo em todo o país, afrouxar as medidas do Ministério da Saúde pode levar "ao estouro da boiada na segunda-feira", segundo outro assessor do presidente.

Um médico que participa dos conselhos de combate ao coronavírus adverte que "não vai ter caixinha de cloroquina que funcione".

Ainda neste sábado, Bolsonaro republicou nas redes sociais mensagem de duas semanas atrás em que defende o fim das restrições ao comércio e à circulação de pessoas.

Em seguida, deixou o Palácio da Alvorada, mais uma vez, para encontrar apoiadores em Águas Lindas de Goiás, onde está começando a ser erguido um hospital de campanha.

Enquanto o presidente estica a corda e confronta diariamente seu ministro da Saúde, o governador de São Paulo, João Doria, ameaça até prender quem não cumprir as regras de isolamento social, a partir desta segunda-feira.

E se os bolsominions se organizarem nas redes sociais do "gabinete do ódio" para resistir às ordens de prisão?

É mais confusão à vista. Os próximos dias prometem fortes emoções.

Boa Páscoa a todos.

Vida que segue.

Errata: o texto foi atualizado
A cidade à qual o presidente Jair Bolsonaro foi se chama Águas Lindas de Goiás, e não Águas Claras, como estava no 14º parágrafo. O trecho foi corrigido.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Balaio do Kotscho