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Contra o isolamento, Bolsonaro boicota plano para controle da pandemia

Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

13/04/2020 18h43

Nada segura o presidente Jair Bolsonaro em sua campanha contra o isolamento social, defendido pelo Ministério da Saúde e por governadores, no combate à epidemia do coronavírus.

Quando já estava tudo certo para a implantação em todo o país de um plano de geolocalização de dados por meio de celulares, para identificar situações de risco pela contaminação do vírus, Bolsonaro deu ordens ao sumido astronauta Marcos Pontes, ministro de Ciência e Tecnologia, para suspender a operação.

Esta solução já vinha sendo adotada em São Paulo pelo governador João Doria, com base nos resultados obtidos pela Coréia do Sul, um dos países com menores taxas de mortalidade pelo Covid-19.

Por isso mesmo o plano era criticado nas redes sociais pelo filho Eduardo Bolsonaro, o 03, que acabou convencendo o pai, alegando que havia riscos para a privacidade do cidadão, o que é uma bobagem.

A geolocalização de dados adotada em São Paulo não identifica os donos dos celulares, mas apenas mapeia sinais de aglomeração de pessoas em determinados pontos da cidade.

O ministro Marcos Pontes já tinha até gravado um vídeo para anunciar a implantação do sistema nesta semana, como relatou Lauro Jardim em sua coluna de O Globo, mas foi obrigado a recuar.

Esse é apenas mais um capítulo da guerra política entre o presidente, o seu ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, que continua balançando no cargo, e os governadores empenhados em achatar as curvas crescentes de novas vítimas do coronavírus.

Os últimos números divulgados pelo Ministério da Saúde mostram que o número de mortos subiu para 1.328 nas últimas 24 horas e já há mais de 24 mil pessoas contaminadas, superlotando os hospitais, mas isso não importa para Bolsonaro.

O que ele quer é acabar o mais rapidamente possível com o isolamento social e mandar reabrir o comércio, com a ajuda agora do procurador-geral da República, Augusto Aras, que quer dar ao presidente a última palavra sobre essa questão, contra a posição já tomada pelo STF a favor dos governadores e prefeitos.

Assim, o combate à pandemia no Brasil sai cada vez mais da área médica e científica para o campo político e jurídico, na contramão do que recomenda a Orqanização Mundial da Saúde (OMS), e é seguido pelos maiores países do mundo, agora até nos Estados Unidos do amigo Trump.

É mais uma vitória da turma do terraplanismo olavista e do "gabinete do ódio" comandado pelos filhos, que ameaça de colapso o sistema de saúde pública do país.

Vida que segue.

Balaio do Kotscho