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Por que repórteres da Folha e do UOL não entram no sorteio de Braga Netto?

Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

14/04/2020 19h16

Desde que o general Braga Netto, chefe da Casa Civil e ex-interventor militar na segurança do Rio, assumiu o comando das entrevistas diárias do governo federal um fato me chama a atenção: repórteres da Folha e aqui do UOL nunca são sorteados para fazer perguntas.

Não é estranho? Ou os repórteres do maior jornal e do maior portal de notícias do país são muito azarados, ou "esquecem" de colocar o nome deles no sorteio.

Em governos democráticos, quem organiza entrevistas coletivas costuma ser o secretário de Imprensa, cargo que foi extinto por Bolsonaro, depois de quatro tentativas frustradas nas nomeações. Por algum tempo, ocupou o cargo de porta-voz um outro general, mas ele já sumiu do mapa depois da chegada de Braga Netto.

Nestes tempos de crise global, em outros países quem fala nas entrevistas sobre o combate ao coronavírus e responde a perguntas dos jornalistas é o próprio presidente, como Donald Trump, nos Estados Unidos, ou uma primeira-ministra, como Angela Merkel, para citar dois exemplos.

Até a rainha Elizabeth já discursou sobre o combate à pandemia em nome do Reino Unido.

Aqui, o presidente Bolsonaro só apareceu na primeira coletiva do governo sobre o coronavírus com os ministros, quando todos apareceram de máscara.

Durante as primeiras semanas da pandemia no Brasil, quem falava em nome do governo era apenas o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta.

Como acharam que ele estava ganhando muito protagonismo, criaram a coletiva com ministros convidados, sob o comando do general Braga Netto, que pouco se manifesta, mas presta uma atenção danada no que os outros falam e, principalmente, nas perguntas dos jornalistas.

Com um certo constrangimento e muito cuidado, os repórteres costumam se dirigir apenas ao ministro Mandetta para fazer perguntas sobre o combate ao coronavírus.

Nesta terça-feira, dois deles fizeram perguntas ao general, que foi breve nas respostas, como se estivesse lendo a ordem do dia. .

Uma repórter da Globo perguntou se o novo comitê criado hoje no Palácio do Planalto para estudar formas de afrouxamento do isolamento social e a retomada das atividades econômicas não poderia afetar a autonomia de estados e municípios, assegurada pelo Supremo Tribunal Federal.

"De forma alguma. Não tem nada a ver uma coisa com outra. Nós vamos tratar de investimentos. Qual governador que não quer investimentos para o seu estado?"

Não há replicas. A outra pergunta foi do repórter de uma rádio de Pernambuco que se enrolou para falar da sinergia entre o homem e o cavalo, já que Braga Netto é da cavalaria. Se bem entendi, queria saber se o general aplicava a sinergia também entre os ministros, levantando a bola para uma resposta sobre o perfeito entendimento existente no governo.

Quem roubou a cena nessa entrevista foi o ministro Onyx Lorenzoni, da Cidadania, que na semana passada foi pego em flagrante pela CNN, tramando, com o ex-ministro Osmar Terra, a derrubada do ministro da Saúde.

Mandetta acompanhou cabisbaixo o discurso de Lorenzoni em defesa do presidente Bolsonaro, por ele várias vezes citado como mentor de todos os benefícios oferecidos pelo auxílio emergencial "aos mais vulneráveis", numa profusão de milhões e bilhões.

Tudo neste ritual soa estranho. Não é normal um ministro sair em defesa e ficar fazendo elogios ao presidente. Costumava acontecer o contrário em outros governos para "prestigiar" o ministro ameaçado no cargo.

Quando Braga Netto já ia dar a entrevista por encerrada, o astronauta Marcos Pontes, ministro da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicação, que quase não fala nada, pediu a palavra para dar "uma boa notícia".

Fez-se silêncio no recinto. Mas Pontes criou um anti-climax, ao dizer que só poderia dar a boa notícia amanhã, depois de checar alguns fatos, "porque a ciência se baseia em fatos".

Enquanto eles falavam, o país ficou sabendo que, pela primeira vez, foram registradas mais de 200 mortes em um só dia no Brasil, totalizando 1.532 vítimas fatais do coronavírus, e o número de casos oficiais da doença já passava de 25 mil.

Mas sobre isso ninguém falou nem perguntou. Teve até um repórter que perguntou ao ministro da Saúde quantas pessoas tinham sido curadas, como já pediu o presidente, mas Mandetta se enrolou para dizer que não tinha esses números.

Repito a pergunta do título desta coluna: por que repórteres da Folha e do UOL não entram no sorteio de Braga Netto?

Na coletiva de manhã, alguém poderia fazer essa pergunta. Fica a sugestão.

Vida que segue.

Balaio do Kotscho