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Fim da quarentena será uma tragédia que matará os mais pobres

Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

20/04/2020 14h28

Em sua oração aos devotos, na manhã desta segunda-feira, na porta do Alvorada, Bolsonaro anunciou, sem mais nem menos, que essa deverá ser "a última semana de quarentena".

Nem vai precisar de decreto para acabar com o isolamento social, como ele ameaçou fazer dias atrás "com uma canetada".

"Eu sou a Constituição", proclamou aos seus seguidores, dando uma de Luiz XIV, para tranquilizar a todos e ignorar os jornalistas presentes a mais um ritual.

Na prática, a quarentena já estava acabando nos últimos dias, em todo o país, com aglomerações nas ruas de comércio popular, principalmente nas regiões mais pobres, que são as maiores vítimas da pandemia, enquanto o presidente participava de um ato golpista em frente ao Quartel General do Exército, em Brasília, e carreatas de carrões blindados fechavam o acesso a hospitais e pediam o fim da quarentena.

Este fim de semana foi uma grande farra de lojas abertas, botecos animados, buzinaços e pedidos de intervenção militar _ mais ainda? _ com grande parte da população voltando às ruas, como se o perigo do coronavírus tivesse desaparecido por encanto ou graças a doses maciças de cloroquina.

O "liberou geral" do presidente surge exatamente no momento em que o Ministério da Saúde prevê a chegada do pico da pandemia de Covid- 19, que deve avançar pelo mês de maio.

Bolsonaro voltou a repetir que 70% da população vai ser contaminada, não tem jeito, fazer o quê?, e a vida precisa voltar ao normal porque ele quer.

Se o presidente se desse ao trabalho de ver o mapa de mortes no Rio e em São Paulo, ficaria sabendo que a maior parte das vítimas fatais vivia nos grotões das periferias e subúrbios onde o poder público não chega.

Em São Paulo, onde a contagem de óbitos chegava a 1.935 até sexta-feira, os distritos de Brasilândia, com 54 mortes, e Sapopemba, com 51, eram os mais atingidos. Na sequência, ficam São Mateus, com 41 mortes, e Cidade Tiradentes, com 37. É lá que vivem os trabalhadores sem comida na geladeira que o presidente diz defender.

No Rio, a região com maior número de óbitos é a zona oeste, onde Campo Grande lidera o contingente de aglomerações medido pela prefeitura. Não por acaso, uma em cada três mortes no Rio é registrada em Campo Grande, Bangu e Realengo.

Bolsonaro poderia também ler a entrevista que o médico Drauzio Varella deu à BBC Brasil, prevendo uma "grande tragédia nacional" nas próximas semanas.

"Você vê que até hoje a gente não conseguiu definir a partir de quanto tempo nós podemos relaxar. Quanto tempo? Dois meses? Três meses? Seis meses? Ninguém sabe. Ninguém arrisca dizer por ter responsabilidade".

Pois, com a responsabilidade de presidente da República, Bolsonaro já chegou a anunciar que "o vírus está indo embora" e deixou claro que não vai sossegar enquanto não conseguir acabar com a o isolamento social, mesmo indo contra decisões do STF e do Congresso, os principais alvos das carreatas da morte bolsonaristas.

Disposto a levar a necropolítica às últimas consequências, ele não dá a menor bola às "notas de repúdio" emitidas por lideranças do Legislativo e do Judiciário, e entidades da sociedade civil, como a OAB e a ABI.

Sem obstáculos à vista, Bolsonaro reencarna um Luiz XIV caboclo, mesmo que não saiba que rei foi esse.

E boa parte dos brasileiros, como sabemos, prefere seguir as orientações do ex-tenente do que as do médico Drauzio Varella.

Em breve, conheceremos o resultado dessa escolha.

Vida que segue.

Balaio do Kotscho