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Bolsonaro já não manda mais nada, virou um estorvo. O que fazer com ele?

Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

21/04/2020 15h15

Da ala militar do Planalto ao STF, do Congresso aos governadores, ganhou força esta semana uma pergunta que ninguém consegue responder no momento: o que fazer com Bolsonaro?

Se ainda havia dúvida de que ele já não tem mais a menor condição de governar o país, agora não resta mais nenhuma, depois da grotesca micareta golpista de domingo, em frente ao QG do Exército.

Bolsonaro virou apenas um estorvo, que não governa mais o país.

Hoje, ele já não deu nem a tradicional paradinha no portão do Alvorada para mostrar que ainda é o presidente.

O melhor retrato do fim de feira do seu governo foram duas fotos publicadas pela própria família no fim de semana.

Numa delas aparece Bolsonaro, ao lado do seu estado-maior, o 01, o 02 e o 03, comendo espigas de milho numa mesa sem toalha, antes de Bolsonaro ir para o QG apoiar a manifestação de seus devotos, que pediam intervenção militar, a volta do AI-5 e o fechamento do Congresso e do STF. As faixas eram todas estranhamente iguais, confeccionadas no mesmo bunker que a PGR agora quer investigar.

Na caçamba de uma camionete, o ainda presidente fez um discurso de dois minutos, sem pé nem cabeça, interrompido por um acesso de tosse.

Em outra, depois do ato contra a democracia, Bolsonaro está no sofá no Alvorada, de camiseta, calção e chinelos, assistindo a uma live do ex-deputado Roberto Jefferson, presidente do PTB, que já chefiou a tropa de choque de Fernando Collor, nos derradeiros dias de seu governo, pouco antes antes do impeachment. Mau sinal, má lembrança.

Jefferson foi o único líder político que saiu em defesa do presidente, o que dá uma ideia do seu isolamento, após quase 16 meses de mandato.

Na mesma noite de domingo, o filho Carluxo divulgou o vídeo de um grupo de seguidores de Bolsonaro num estande de tiro, disparando uma fuzilaria de balas e gritando "Mito!"

A milícia digital do 02, que mobiliza um exército de robôs para convocar carreatas e atos de apoio ao presidente, é hoje a principal base de sustentação do presidente, que ainda tem o apoio de um terço do eleitorado, segundo as pesquisas.

Esse é o principal entrave para responder à pergunta sobre o que fazer com Bolsonaro, já que a maioria da população está em suas casas de quarentena, com medo da pandemia do coronavírus que se alastra pelo país.

O coronavírus acabou, ironicamente, dando uma sobrevida ao governo, que já estava em frangalhos antes de a pandemia chegar ao Brasil.

Só nesta terça-feira, lideranças do PT, reunidas por vídeo conferência com Lula, decidiram aderir ao movimento do "Fora Bolsonaro", que por enquanto só existe nas bolhas das redes sociais, em que o bolsonarismo é imbatível.

Alternando a cada dia papéis de carrasco e de vítima, de apoiador do golpismo e de defensor da democracia, como mostrou a genial cartunista Laerte, o presidente improvável segue criando cortinas de fumaça e muita confusão para alimentar seu gado fiel e tentar manter o controle de um poder que já perdeu, mas não entrega.

É tudo tão bem planejado que isso não pode ter saído só da cabeça dele e dos três filhos reunidos em torno das espigas de milho.

Bolsonaro já não sabe mais o que fazer para o Brasil descobrir logo o que fazer com Bolsonaro.

"Eu não sou coveiro", respondeu, quando um repórter lhe perguntou sobre a confusão no número de mortos pela Covid-19 divulgada pelo Ministério da Saúde.

É agora apenas um "Golpista que mia", como o definiu, com muita precisão, o editorial da Folha nesta terça-feira.

Até quando, meu Deus?

Vida que segue.

Balaio do Kotscho