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"Chega da velha política"? É só o que Bolsonaro está fazendo, negociando

Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

22/04/2020 14h07

"Chega da velha política! Nós não queremos negociar nada", bradou Bolsonaro, no domingo, do alto da caçamba de uma caminhonete para algumas poucas centenas de adoradores reunidos em frente ao QG do Exército, para pedir intervenção militar e a volta do AI-5.

Apenas 72 horas depois, o presidente vai receber nesta quarta-feira, no Palácio do Planalto, o presidente do MDB, Baleia Rossi, e amanhã será a vez de ACM Neto, do DEM, partido de Rodrigo Maia, dois expoentes do que ele chama de "velha política", dando sequência aos encontros da semana passada iniciados com líderes do Centrão.

De uma hora para outra, depois de proclamar que "acabou a época da patifaria", Bolsonaro resolveu abrir o balcão de negócios de cargos e verbas para isolar Rodrigo Maia, o novo inimigo número um do bolsonarismo, que guarda 16 pedidos de impeachment na gaveta.

Sem partido e sem base de sustentação no Congresso, negociando no varejo com os parlamentares, o capitão recorre ao que há de mais velho na velha política para se segurar no cargo e evitar a abertura de um processo de impeachment, agora que a PGR e o STF abriram investigações sobre a organização dos atos pró-Bolsonaro.

Até figuras que haviam desaparecido do mapa desde o mensalão do PT, como Valdemar da Costa Neto, do PR, e Roberto Jefferson, do PTB, agora viraram interlocutores do Planalto, que quer de qualquer forma evitar uma possível reeleição de Maia para a presidência da Câmara.

Como não tem nenhum compromisso com a verdade nem com o que falou ainda ontem, Bolsonaro recorre aos métodos que conheceu muito bem como figurante folclórico do baixo clero da Câmara ao longo de 28 anos ininterruptos de mandatos como líder sindical de policiais e militares.

Enquanto faz um discurso de valentão nas manifestações dos bolsonaristas contra o STF e o Congresso, para agradar ao rebanho do bolsonarismo radical, o ex-deputado colocou em leilão jóias da coroa federal como a presidência do Banco do Nordeste e da Codevasf (Companhia de Desenvolvimento do vale do São Francisco), e até secretarias do Ministério da Saúde, agora sob intervenção direta do Palácio do Planalto.

É como se a pandemia de coronavírus simplesmente não tivesse chegado ao Brasil porque esse assunto está longe das preocupações e das audiências do presidente.

Em sua agenda de hoje, só constam encontros com os ministros Bento Albuquerque, de Minas e Energia, e Ernesto Araújo, da Relações Exteriores.

Durante a madrugada, o terraplanista chanceler indicado por Olavo de Carvalho, postou em seu blog pessoal novos ataques à China, atribuindo a pandemia de coronavírus, que já matou mais de 180 mil pessoas, a um "projeto globalista, o novo caminho do comunismo".

Para Ernesto Araújo, em seus delírios insones, o "comunavirus faz despertar o pesadelo comunista".

Enquanto isso, mais um general é nomeado para o governo. Dessa vez, para tutelar o desaparecido novo ministro da Saúde, um médico empresário que nunca deve ter entrado num hospital público e vai levar meses até entender o funcionamento do Sistema Único de Saúde.

Sem paciência para dar explicações sobre essa sua dupla personalidade, Bolsonaro agora não quer mais papo nem com a sua militância, como mostrou matéria publicada hoje no UOL, muito menos com os jornalistas que frequentam o "cercadinho" do Alvorada.

Esta manhã, os repórteres nem conseguiram fazer perguntas ao chefe da nação.

"Eu não vou falar com a imprensa, porque eu não preciso falar. Então, vocês não distorcem mais. O que eu li hoje, inventam tudo. Então, podem continuar inventando", disse, virou as costas e saiu andando em direção ao carro, sob os gritos de "Mito!"e os aplausos da sua claque.

Da minha parte, posso garantir que não estou inventando nada. Pode parecer ficção de realismo mágico, eu sei, mas aqui só relatei fatos e reproduzi declarações do próprio presidente.

É tudo real, por incrível que pareça.

Sei que a milícia digital do 02, tão assídua e feroz neste Balaio, vai continuar me xingando, mas eu não posso brigar com os fatos.

Se a paisagem não agrada, a culpa não é da janela.

Vida que segue.

Balaio do Kotscho