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1º de Maio: FHC e Lula voltam a dividir um palanque, depois de 31 anos

Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

23/04/2020 13h58

A ameaça simultânea do coronavírus e do bolsovírus ao emprego, à saúde e à vida dos brasileiros operou o milagre de reunir novamente no mesmo palanque, desta vez virtual, os ex-presidentes Lula e Fernando Henrique Cardoso, algo que não se via há 31 anos.

A última vez em que os dois dividiram o mesmo palanque foi na reta final do segundo turno de 1989, quando FHC apoiou Lula contra Fernando Collor, que foi eleito.

Era a primeira eleição direta para presidente depois da ditadura militar. Nas duas eleições seguintes, FHC se elegeu no primeiro turno disputando com Lula. Em 2003, FHC passou a faixa para Lula.

Muitos anos antes, em 1978, Lula já tinha feito campanha para FHC na eleição para o Senado.

Em 1984, os dois juntos participaram da campanha das Diretas Já, comandada pelo amigo comum Ulysses Guimarães, o grande líder da redemocratização do país, que hoje faz tanta falta.

Agora, os dirigentes das seis principais centrais sindicais brasileiras (CUT, Força Sindical, UGT, CTB, Nova Central e CSB) montaram um palanque virtual para as comemorações do Dia do Trabalho, em 1º de Maio, com a participação dos dois ex-presidentes, e mais o ex-ministro Ciro Gomes e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, segundo reportagem de Catia Seabra publicada hoje na Folha.

Também foram convidados o governador do Maranhão, Flávio Dino, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, e o presidente do STF, José Dias Toffoli.

Ainda deverão falar aos trabalhadores a ex-presidente Dilma Rousseff e os governadores do Rio, Wilson Witzel, e de São Paulo, João Doria, em vídeos que irão ao ar na live do palanque eletrônico no Dia do Trabalho.

A lista de oradores foi ampliada após a participação do presidente Jair Bolsonaro na manifestação golpista do último domingo, em que foi pedida a intervenção militar e a volta do AI-5.

"Está cada vez mais claro que Bolsonaro não tem apreço pela democracia e trabalha o tempo todo para instituir um regime autoritário no país", justificou Sergio Nobre, presidente da CUT.

Este ano, o lema do ato das centrais sindicais é "saúde, emprego, renda e democracia: um novo mundo é possível com solidariedade".

Para o presidente da CTB, Adilson Araújo, "a tese do bloco de esquerda se dilui quando a batalha é a defesa da democracia", o que permitiu a ampliação do palanque. "Tudo que não conseguimos fazer no mundo real podemos fazer agora no mundo virtual".

Na abertura da transmissão, representantes da OAB, da ABI e da CNBB farão breves depoimentos, entremeados por shows de artistas convidados.

Reunir na mesma manifestação, ainda que virtual, Lula, FHC e Ciro, além de todas as centrais sindicais, num ato unificado, tem um caráter simbólico neste momento em que Bolsonaro está cada vez mais acuado e isolado no Palácio do Planalto, com 24 pedidos de impeachment nas mãos de Rodrigo Maia e várias ações no STF para investigar a atuação do presidente no combate à pandemia.

É a resposta da sociedade civil à escalada autoritária do governo, com a precarização do emprego e a incapacidade de gestão do presidente no enfrentamento da crise, segundo o presidente da UGT, Ricardo Patah. "Mas não é o suficiente para ganhar as ruas".

O comício golpista do último domingo, em frente ao Quartel-General do Exército, em Brasília, pode ter sido a gota d´água para unir novamente as forças políticas e sindicais que se mobilizaram pela redemocratização do país nos estertores da ditadura militar, nos anos 1980.

Quatro décadas depois, com a democracia novamente ameaçada, em meio à pandemia do coronavírus, esse 1º de Maio deverá ficar marcado como um divisor de águas.

Vida que segue.

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Balaio do Kotscho