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Bolsonaro se defende atacando Moro. Qual dos dois está mentindo?

Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

24/04/2020 19h04Atualizada em 25/04/2020 12h33

Em resposta às acusações de Sergio Moro, Jair Bolsonaro fez um discurso de 40 minutos no Palácio do Planalto, nesta sexta-feira, para se defender e atacar o seu agora ex-ministro da Justiça.

No ponto mais polêmico do seu discurso, meio improvisado, meio lido, o presidente acusou Moro de ter tentado barganhar o cargo do diretor-geral da PF por uma vaga no STF, mas só em novembro.

Enquanto o presidente falava, o procurador-geral da República, Augusto Aras, solicitou ao STF a abertura de um inquérito para investigar as denúncias de Moro contra Bolsonaro por tentar interferir na Polícia Federal para ter acesso a informações confidenciais.

No seu pedido para a apuração de eventuais atos ilícitos do presidente, Aras solicitou ao mesmo tempo que seja investigado igualmente o possível crime de denunciação caluniosa por parte do ex-ministro.

Ou seja, como um acusou o outro de mentir, se o inquérito for aberto, poderemos ter uma inédita acareação entre o presidente da República e o seu ex-ministro.

Bolsonaro aproveitou o pronunciamento para demonstrar o apoio do ministério, que estava quase todo perfilado ao seu lado, junto com o filho Eduardo Bolsonaro e o amigo deputado Hélio Negão.

O único ministro citado e defendido pelo presidente em sua fala foi o da Educação, Abraham Weintraub. Em compensação, Paulo Guedes reapareceu e era o único protegido por máscara.

Num discurso desconexo, em que alternava queixas pessoais sobre ataques à sua família com criticas ao comportamento de Moro por falta de lealdade e compromisso com o governo, Bolsonaro revelou fatos que podem lhe trazer problemas no futuro durante as investigações solicitadas pela PGR.

Para justificar seu pedido a Moro de acompanhar investigações sigilosas da Polícia Federal, Bolsonaro disse que fazia o mesmo com os serviços de inteligência das Forças Armadas e da Abin, a agência que substituiu o antigo SNI.

Até onde sei, entre as prerrogativas presidenciais numa democracia, não consta o acompanhamento de investigações sigilosas, que foi o estopim da crise com Moro e o ex-diretor-geral Maurício Valeixo.

Aguardam-se os novos capítulos desta emocionante novela planaltina que promete novas revelações nos próximos dias, como Sergio Moro sugeriu em seu pronunciamento.

Nesse meio tempo, a crise política roubou as manchetes do combate ao coronavírus, que matou mais de 300 pessoas nas 24 últimas horas e já deixou mais de 50 mil contaminados pela pandemia.

É como se vivêssemos em dois países com realidades e preocupações diferentes, que estão se estranhando.

Vida que segue.

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do que informou o sétimo parágrafo, Abraham Weintraub estava sim presente no pronunciamento do presidente Jair Bolsonaro. A informação foi corrigida.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Balaio do Kotscho