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E daí? O suicídio coletivo de um país desgovernado

Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

29/04/2020 13h06Atualizada em 29/04/2020 22h13

Brasil bate recordes após recordes de mortos e contaminados pela Covid-19, o sistema de saúde está entrando em colapso e, a cada dia, mais gente rompe o isolamento social, aumentando o risco de contágio, bem no momento em que entramos na fase mais aguda da pandemia.

"E daí?", pergunta Bolsonaro, como quem diz que não tem nada com isso. "Lamento. Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagres".

Tal presidente, tal povo. Difícil saber o que veio primeiro, o que é causa e o que é efeito.

Esta manhã, ao sair do Alvorada, acompanhado de uma tropa de choque de deputados, disposto a afrontar os jornalistas, o presidente lavou as mãos.

"Não adianta a imprensa querer colocar na minha conta essas questões que não cabem a mim".

Cabem a quem, então? Ao Papa, ao Exército da Salvação, ao presidente do Flamengo, à ONU?

"Relatores da ONU denunciam o governo brasileiro diante do que chamam de políticas econômicas e sociais irresponsáveis que colocam milhões de vidas em risco", informa Jamil Chade, correspondente do UOL na Europa.

Rompida a porteira, enquanto o sinistro ministro da Saúde, sempre vigiado por um general, governadores e prefeitos discutem "medidas de afrouxamento para a vida voltar ao normal", o gado bolsonarista saiu atropelando o que viu pela frente para invadir lojas e shoppings, como se fosse véspera de Natal, depois do fim da guerra contra a pandemia.

Só que ainda estamos no meio dessa guerra e, segundo o Datafolha, 46% dos brasileiros já são a favor do relaxamento das regras. Em São Paulo, só 48% estão ficando em casa.

Ou seja, quase metade da população apoia o suicídio coletivo deste país desgovernado por um mentecapto, cercado por filhos dementes e generais de pijama, dançando à beira do abismo.

No país que já conta com mais de 5 mil mortos e 73 mil casos confirmados, passando a China, assiste-se a uma verdadeira farra do boi, e Bolsonaro ainda tem a coragem de culpar a quarentena por essa tragédia anunciada.

Viraram tudo do avesso do avesso do avesso e ninguém sabe mais o que é certo e o que é errado, o que deve ou não fazer, o que é mentira e o que é verdade, com autoridades acusando umas às outras.

Se acusarem a população pela própria desgraça, não estarão tão errados. Afinal, ninguém é obrigado a seguir o líder, correr para o matadouro e achar bonito.

Vida que segue.

Em tempo (atualizado às 22h). Uma leitora me chamou a atenção para não esquecer que muitos empregados estão voltando ao trabalho, por decisão das empresas, com o fim do período de férias ou de home office, o que ajudou a aumentar o movimento nas ruas e nos transportes coletivos. Fica o registro.

Balaio do Kotscho