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A marcha da insensatez de Bolsonaro com empresários sobre o STF

Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

07/05/2020 16h06

Pressionado por grandes empresários para acabar com o isolamento social porque "a indústria está na UTI", Bolsonaro teve uma ideia genial no final desta manhã de quinta-feira: por que não marchamos juntos até o STF para dar uma enquadrada no ministro Dias Toffoli?

Pego de surpresa, o presidente do STF devolveu a bola para Bolsonaro, lembrando que é o governo federal quem precisa planejar a saída do confinamento.

Toffoli até sugeriu que o governo criasse um comitê de crise para elaborar um plano, ouvindo governadores, prefeitos e outros entes da federação. Mas Bolsonaro não quer ouvir ninguém, só busca o confronto. Quem manda é ele, e acabou.

Acontece que esse comitê de crise já existe, comandado pelo general Braga Netto, que estava a seu lado, e permaneceu calado, apenas sorrindo.

Enquanto Toffoli falava, o presidente ficou o tempo todo olhando fixamente para o vazio, mãos cruzadas sobre a mesa, ao lado da máscara de proteção, que ele não conseguiu colocar, e desistiu.

A pauta dos empresários e do seu porta-voz presidente era a mesma das caravanas da morte que percorrem o país nos fins de semana, pedindo o liberou geral, para todo mundo voltar às ruas e salvar a economia, como se a pandemia de coronavírus, que já matou quase 9 mil brasileiros, simplesmente não existisse.

Bolsonaro levou com ele vários ministros-generais e Paulo Guedes, mas não se lembrou do ministro da Saúde, que poderia dar um relato sobre a situação caótica dos hospitais e o crescimento descontrolado do número de mortos e contaminados, tornando o Brasil o novo epicentro mundial da pandemia.

Em vez de defender o relaxamento das medidas de isolamento, como querem Bolsonaro e os empresários, o ministro Nelson Tech admitiu na véspera que várias cidades, à beira do colapso sanitário, deverão entrar em lock down.

Como se estivesse no seu "cercadinho" do Palácio do Alvorada, o presidente levou junto com ele o filho senador Flávio e o amigo deputado Hélio Negão, além da equipe que faz as lives para garantir a transmissão ao vivo do circo armado no STF.

Acontece que Toffoli não foi avisado dessa transmissão, o que o deixou bastante contrariado, assim como os outros ministros do tribunal, que nem ficaram sabendo do inusitado encontro.

No seu breve discurso, o presidente voltou a falar nas consequências do colapso da economia previsto pelos empresários para o aumento do desemprego e o perigo de uma convulsão social, com saques e violência, uma obsessão dele há várias semanas.

Mas Toffoli não se impressionou com isso e deixou bem claro para Bolsonaro que não é ao STF que cabe resolver seu problema com os empresários. Só faltou dizer: "presidente, o presidente é o senhor, não eu".

Principais interessados na volta às atividades econômicas, os trabalhadores brasileiros que estão em home office, desempregados, subempregados ou com o salário reduzido, não estavam representados na reunião, assim como nunca foram ouvidos nas reuniões do comitê de crise do general Braga Netto, que trabalha em sigilo.

Mais uma vez, Bolsonaro falou só para os seus seguidores, que pedem o fechamento do STF e do Congresso, nas carreatas e manifestações de fim de semana.

A diferença é que, dessa vez, o cenário da live presidencial foi o próprio STF.

A marcha da insensatez avança. Qual será a próxima? Sobre o Congresso?

Vida que segue.

Balaio do Kotscho