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Churrasco da morte: Bolsonaro, com todo respeito, mas idiota é o senhor

Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

09/05/2020 15h16

"Alguns jornalistas idiotas criticaram o churrasco FAKE, mas o MBL se superou, entrou com AÇÃO NA JUSTIÇA", escreveu em sua rede social o presidente Jair Bolsonaro, na manhã deste sábado, dia por ele marcado para o evento festivo no Palácio do Alvorada, com 30 convidados.

Como um desses jornalistas, com 56 anos de exercício da profissão, talvez eu seja o mais antigo repórter em atividade, e preciso lhe dizer uma coisa: com todo respeito, mas idiota é o senhor, presidente Bolsonaro.

Só um completo idiota, no exercício da Presidência, pode ter a coragem de anunciar que fará um churrasco no Palácio da Alvorada no auge da pandemia de coronavírus, que já matou 9.897 brasileiros e contaminou outros 145.328, com o sistema público de saúde em colapso.

Fake é o seu governo de fancaria, que demite o ministro da Saúde e coloca um zumbi em seu lugar, nomeando uma tropa de militares para assumir os cargos de profissionais de carreira.

Na quinta-feira, no palco do "cercadinho" do Alvorada, depois de comandar uma aloprada passeata com empresários e lobistas para ocupar o Supremo Tribunal Federal e pressionar seu presidente, ministro Dias Toffoli, a acabar com o isolamento social, foi o senhor quem comunicou aos jornalistas que faria um churrasco com a presença de sua equipe ministerial.

Questionado no dia seguinte, no mesmo local, se promover um evento com aglomeração de pessoas não seria um mau exemplo para o país, assolado pela pandemia fora de controle, o senhor resolveu partir para o deboche.

Como um animador de auditório das tardes domingo, dando gargalhadas, o senhor começou a aumentar o número de convidados, até chegar a 3.000 pessoas.

Até aquele momento, na mesma hora em que o Ministério da Saúde anunciava mais 751 novas mortes no país, o churrasco não era fake.

Só na noite da sexta-feira, segundo aliados ouvidos pela Folha, o senhor decidiu cancelar o convite que havia sido feito a ministros e outros integrantes do governo.

O fato é que a grande repercussão negativa, dentro e fora do governo, levou o senhor a mais uma vez recuar, como tem feito desde o início do governo, ao perceber que a ideia do churrasco "pegou mal".

A partir daí, alguns assessores começaram a dizer que a história do churrasco "não havia passado de uma provocação", que tinha sido apenas uma brincadeira.

Hoje, logo cedo, pelo Twitter, o senhor resolveu chamar os jornalistas de idiotas por terem divulgado o que o presidente da República havia falado nos dias anteriores.

É o cinismo levado às últimas consequências, mais um exemplo da total irresponsabilidade de quem até agora não conhece as responsabilidades do cargo que ocupa, diante da gravíssima crise em que o senhor mergulhou o país desde a sua posse.

Em lugar de mais uma vez culpar a imprensa pelos seus desatinos, o senhor deveria ter a coragem de se dirigir à nação para pedir desculpas pela afronta do churrasco da morte, e começar a governar o país com seriedade, sem fazer provocações e atentar diariamente contra a democracia, a saúde pública e o Estado de Direito.

Se não quiser governar, pede para sair.

Vida que segue.

Balaio do Kotscho