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Nas voltas que a vida dá: após 4 anos, o golpe está chegando ao fim?

Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

12/05/2020 18h40Atualizada em 13/05/2020 14h58

As informações que vazaram hoje da exibição daquele vídeo pornô da reunião ministerial, que levou Moro à demissão, são "devastadoras" para o presidente Bolsonaro, que queria trocar o diretor geral da Polícia Federal para proteger a sua família, segundo todos os testemunhos.

Palavrões e baixarias à parte, o vídeo desnudou como opera o governo da balbúrdia institucional, um bando de aloprados que está destruindo o país.

Vazar é uma palavra que Moro conhece muito bem, dos tempos em que era o todo-poderoso justiceiro da Lava Jato em Curitiba.

Nas voltas que a vida dá, o ex-ministro, que ajudou a levar Bolsonaro ao poder, após o breve interregno do probo Michel Temer, pode agora ser o algoz que o derrubará da cadeira.

Hoje faz exatamente quatro anos que o Senado consumou o golpe jurídico-parlamentar para afastar a presidente Dilma Rousseff por conta de "pedaladas fiscais", algo que nunca foi bem explicado.

Perto do que estamos assistindo agora, pedalada só lembra criança passeando de bicicleta no jardim do prédio durante a pandemia.

Quem poderia imaginar que três generais do Palácio do Planalto estariam depondo neste momento em que escrevo para procuradores e delegados da Polícia Federal que investigam as denúncias de Moro contra Bolsonaro?

Quatro anos atrás, Moro era o "herói nacional" e Bolsonaro um quase desconhecido deputado do baixo clero que defendia a ditadura militar e os torturadores.

Nas voltas que a vida dá, Moro virou superministro da Justiça e Segurança Pública do presidente eleito Jair Bolsonaro com a missão de combater a corrupção e o crime organizado.

E caiu do cavalo exatamente por não querer continuar acobertando casos de corrupção e do crime organizado no reduto eleitoral da família Bolsonaro, que queria porque queria trocar o superintendente da Polícia Federal no Rio de Janeiro por um delegado em quem pudesse mandar para se proteger.

Nas voltas que a vida dá, agora o mesmo Centrão que derrubou Dilma está de volta ao centro do poder, com Roberto Jefferson e tudo, para impedir o impeachment de Bolsonaro.

Com a economia nacional esfacelada (já antes da chegada da pandemia), os direitos trabalhistas detonados, milhões e milhões de desempregados jogados na rua, a indústria brasileira em cacos, o mundo tratando o Brasil como um pária, será que valeu a pena trocar Dilma por Temer, prender Lula e abrir caminho para o bolsonarismo galopante da extrema-direita que está agonizando?

Para salvar o golpe de 2016, agora querem dar um autogolpe com generais de pijama na retaguarda e milícias amarelas na frente gritando "Mito!".

Nas voltas que a vida dá, o Brasil retrocedeu 50 anos para chegar a lugar nenhum.

Vida que segue.

Errata: o texto foi atualizado
O erro de digitação no sobrenome da ex-presidente Dilma Rousseff e da palavara balbúrdia foram corrigidos

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Balaio do Kotscho