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Bolsonaro se une a Aras na guerra contra o STF

Presidente Jair Bolsonaro conversa com procurador-geral da República, Augusto Aras, no Palácio do Planalto -
Presidente Jair Bolsonaro conversa com procurador-geral da República, Augusto Aras, no Palácio do Planalto
Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

27/05/2020 19h10

"Ilegal e despropositada" (Jair Bolsonaro)

"Desnecessária e desproporcional" (Augusto Aras)

Quase com as mesmas palavras, o presidente e o procurador-geral da República reagiram ao cerco do Supremo Tribunal Federal contra o governo desencadeado nos últimos dias.

Inconformado com a operação da Polícia Federal determinada pelo ministro Alexandre de Moraes contra seus aliados no inquérito que investiga o "gabinete do ódio", o presidente Jair Bolsonaro convocou uma reunião de emergência do ministério para declarar guerra ao STF, no final da tarde desta quarta-feira.

Por sugestão do general Augusto Heleno, chefe do GSI, a primeira reação será não atender à convocação de Moraes para o ministro da Educação, Abraham Weintraub, prestar depoimento no inquérito que apura suas declarações na reunião ministerial de 22 de abril, em que pediu a prisão de todos os ministros do STF, depois de dizer que em Brasília só tem canalhas e ladrões.

Desta vez, imagina-se, a reunião não deverá ser gravada.

No centro do conflito entre os dois poderes está, mais uma vez, um dos filhos do presidente, Carlos Bolsonaro, o 02, apontado nos depoimentos de parlamentares já ouvidos no inquérito como o articulador e chefe do "gabinete do ódio", o que, de resto, não é segredo para ninguém em Brasília.

Definido por Alexandre de Moraes como "associação criminosa", o grupo de assessores, parlamentares e empresários que financiam a fábrica de fake news —criada ainda na campanha eleitoral e que agora funciona no Palácio do Planalto— é investigado pela disseminação de mensagens de ódio contra integrantes do STF e outras instituições.

Nas voltas que a vida dá, o mesmo esquema montado por Carlos Bolsonaro nas redes sociais para dar suporte à campanha de Bolsonaro desde 2014, quando ele lançou a candidatura para presidente, agora pode ser o começo do fim do seu governo, porque a investigação no STF abrange o período entre julho de 2018 e abril de 2020.

As provas colhidas neste inquérito poderão subsidiar ações que correm no Tribunal Superior Eleitoral. Esta semana, o novo presidente do TSE, ministro Luis Barroso, já anunciou que pretende levar esses processos a plenário nos próximos dias.

Para Bolsonaro, que já é alvo de investigação no STF sobre as denúncias de Sergio Moro por tentativa de interferência na Polícia Federal, pode ser a tempestade perfeita, antes de completar um ano e meio de governo. E, para completar, Alexandre de Moraes será um dos novos ministros titulares do TSE.

A rede de proteção de Bolsonaro para enfrentar a tormenta, além dos militares e do Centrão, agora pode contar também com o procurador-geral Augusto Aras, que tem demonstrado a maior boa vontade com o presidente. Em retribuição, esta semana Aras recebeu uma visita surpresa de Bolsonaro.

Vale lembrar que, por diversas vezes, após a vitória, o pai Bolsonaro atribuiu ao filho Carlos os maiores méritos por ter chegado ao poder, justamente pelo fato de ter montado sua rede social para detonar adversários com mentiras e manter a moral da tropa aliada, recrutada nos quartéis e nos movimentos de extrema-direita.

Vida que segue.

Balaio do Kotscho