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O sentido do avesso das palavras em tempos de guerra

Presidente Jair Bolsonaro em Brasília -
Presidente Jair Bolsonaro em Brasília
Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

28/05/2020 16h21

"Agora é guerra", avisou Bolsonaro, depois que estouraram o bunker do "gabinete de ódio" do filho Carlucho, o 02, criador e comandante em chefe da fábrica de fake news nas redes sociais, que ainda lhe garante 33% de apoio popular, segundo o Datafolha.

Dizem os antigos que a primeira vítima numa guerra é a verdade.

No nosso caso, a grande vítima é o sentido das palavras na novilíngua do bolsonarismo. Virou tudo do avesso.

Será necessário criar um novo dicionário para as pessoas entenderem o que o poder está querendo dizer.

Nunca, como agora, se falou tanto em democracia, liberdade de expressão, respeito à Constituição, Deus e família —e, no entanto, esses valores sagrados nunca foram tão desrespeitados.

Segue abaixo um breve estudo preliminar sobre o novo sentido das palavras nestes tempos de guerra.

Democracia — É o governo dos "homens de bem" para os "homens de bem", seguindo o lema "Eu mando e vocês obedecem, talkei?" Quem não estiver satisfeito que vá reclamar para o bispo Macedo ou o Alexandre de Moraes. Para a tranquilidade de todos, o presidente ainda em exercício proclamou nesta manhã de quinta-feira no cercadinho do Alvorada: "Estou com as armas da democracia na mão." Sai da frente que lá vem bala. "Acabou. Cheguei no meu limite." O STF que se cuide.

Cercadinho do Alvorada — Espaço democrático criado pelo atual governo, dividido entre os "homens de bem" que o apoiam e os jornalistas, esses inimigos da nova democracia armada, bando de comunistas.

Imprensa lixo — São todos os veículos da mídia nativa e do mundo inteiro que insistem em contar o que está acontecendo no Brasil sem pedir licença ao Palácio do Planalto. Seus repórteres só inventam fake news, distorcem, manipulam e escondem o que o governo faz de bom para o país.

Imprensa limpinha — Grupo aliado comandado por SBT (Sistema Bolsonarista de Televisão), Record, Jovem Pan e blogs amigos, aqueles financiados por amigos ricos, que só contam a verdade. Entre os "jornalistas do bem", destacam-se Datena, Ratinho, Alexandre Garcia e Augusto Nunes.

Liberdade de expressão — É o direito que todos têm de concordar com o Heleno, a Damares, o Araujo, o Weintraub, o Salles e o Carlucho, com seus robôs amestrados, em prol do bem-estar da população. Em outros tempos, foi muito usada pelos comunistas para implantar o "marxismo cultural", a distribuição de renda e a defesa dos direitos humanos.

Constituição — Pode-se transformar numa arma perigosa nas mãos dos ministros do STF que querem derrubar o governo. Bem usada, pode servir para liberar armas para todos, calar a boca dos inimigos e, se for necessário, facilitar a implantação do estado de sítio. Obra de comunistas, precisa passar por uma reforma completa comandada pelo grande jurista Roberto Jefferson.

Centrão — Era um baluarte da "velha política" do toma lá dá cá, que agora está sendo modernizado pelos ministros militares. Não é o que vocês estão pensando. Tem muita gente boa lá, só estavam precisando de um novo líder comprometido com o combate à corrupção (dos outros).

Pandemia — É uma grande fake news inventada pelos comunistas chineses para dominar o mundo (Ernesto Araujo). Não passa de uma gripezinha (Jair Bolsonaro).

Rebanho — Nome dado ao gado fiel que promove caravanas da morte e protestos pró-governo em frente ao Palácio do Planalto e a quarteis generais. Pode também ser chamado de boiada (Ricardo Salles). Sonha com a volta do AI-5 para acabar com essa balbúrdia da democracia.

Bolsonarismo — Corrente de pensamento nativo, que já existia há muito tempo, mas estava enrustido em boa parte da população, e só agora saiu do armário para ganhar protagonismo. Caracteriza-se por um profundo sentimento patriótico embrulhado em bandeiras nacionais, dos Estados Unidos e de Israel. Bolsonaristas identificam-se com camisetas da CBF e não podem ver jornalista pela frente que já saem batendo e xingando. São um pouco radicais, é verdade, mas sinceros. Só não podem ser contrariados.

Procuradoria-Geral da República — Instituição antiga criada para fiscalizar os três Poderes em defesa dos cidadãos, mas que em nome da nova democracia agora foi transformada em Procuradoria-Geral do Presidente da República. Qualquer problema, o procurador mata no peito.

Diálogo — É quando eu falo e você ouve. Se não concordar, leva uma bolacha.

Medicina, Ciência, Arte, Cultura e Meio Ambiente — Tudo invenções de comunistas, a serviço de ideologias exóticas, que não têm mais lugar no nosso novo Brasil. São velharias criadas por um bando de desocupados que só querem ferrar com o governo. Para combate-las, temos agora as nossas redes sociais.

Golpe militar, ditadura, tortura, censura, desaparecidos políticos, cassações, assassinatos — Isso nunca existiu no Brasil. Estamos combinados? Melhor tirar do dicionário, talkei?

Vida que segue.

Balaio do Kotscho