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Um provocador irresponsável está solto nas ruas, mas há resistência

Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

07/06/2020 15h21

Até quando? Ninguém vai parar esse homem? Como é que o povo pode aguentar isso? Aonde ele está querendo chegar com essas loucuras?

Essas são as perguntas que mais tenho ouvido nestes tempos de quarentena, e já não sei mais o que responder.

Os analistas políticos daqui e de fora também não sabem, assim como as Forças Armadas. Ninguém sabe.

Semana após semana, a irresponsabilidade desse homem assusta e paralisa o país, agravando as crises sanitária, política e econômica, que estão levando o país ao caos e ao desespero.

Militar reformado pelo Exército por insubordinação, líder sindical agitador dos quartéis, deputado federal do fundão baixo clero do Centrão, e agora presidente da República, Jair Bolsonaro sempre foi e continua sendo, acima de tudo, um provocador.

Da hora em que aparece logo cedo soltando os cachorros no puxadinho dos devotos no Alvorada, até voltar no final do expediente no Planalto, ele procura confusão, faz ameaças, desmoraliza ministros, desafia os outros poderes. Só não governa o país.

Está sempre à espera de um pretexto para botar as tropas na rua, fechar o STF e o Congresso, e montar num tanque ou num cavalo baio para declarar guerra ao mundo.

Em sua realidade virtual, Bolsonaro vê conspiração em tudo e, em todo aliado, um traidor em potencial, como Sergio Moro, por exemplo.

Governadores, jornalistas, juízes, cientistas, artistas, estudantes, trabalhadores sem terra e sem emprego, índios, quilombolas, torcidas organizadas, presidentes de outros países, dirigentes da ONU e da OMS, todos são tratados como inimigos do salvador da pátria, um bando de comunistas, terroristas, viciados, pervertidos, ateus e inúteis.

Cercado por um séquito de áulicos civis e militares, os piores tipos que conseguiu recrutar em cada setor da sociedade, não ouve ninguém. O mundo dele se divide entre quem manda e quem obedece.

As agressões à institucionalidade se dão à luz do dia, sem disfarces, descaradamente, em busca do poder absoluto.

A nação humilhada procura se reorganizar em diversos movimentos da sociedade civil contra o poder das milícias cada vez mais armadas.

Usar máscaras para se proteger do vírus é coisa de gente fraca, segundo o presidente, e manter o isolamento social é só para vagabundos que não querem trabalhar.

Se os números de vítimas da pandemia não param de subir, bota logo lá um general no Ministério da Saúde, que receita cloroquina e tortura as estatísticas, até elas confessarem que tudo não passa de uma gripezinha, inventada pelos chineses para sacanear o Brasil.

Enquanto o mundo se mobiliza contra o racismo e a violência policial, em Brasília, Bolsonaro coloca a Força Nacional de prontidão para qualquer eventualidade.

Na Esplanada dos Ministérios, havia mais policiais militares armados para a guerra do que manifestantes a favor do governo, que sumiram do vídeo, perto da quantidade de gente que saiu em defesa da democracia.

E não houve a guerra que Bolsonaro esperava.

Nos Estados Unidos, enquanto escrevo, os protestos antirracistas entram no 13º dia, com milhares e milhares de pessoas tomando as ruas de todo o país, depois de Trump ser enquadrado pelos comandantes militares, que se recusaram a servir de capitães do mato para atacar o próprio povo.

Por aqui, no Largo da Batata, em São Paulo, apesar de todas as ameaças sanitárias e policiais, diante de grandes faixas em que se lê "Ditadura Nunca Mais!", "Democracia!" e "Vidas negras importam", começa uma grande manifestação antifascista e antirracista para mostrar que ainda há resistência à destruição do país.

Uma grande passeata também percorre agora as ruas do Rio, às três da tarde, em defesa da democracia e contra o racismo.

Há uma nova geração nas ruas. Nem tudo está perdido.

Apesar de Bolsonaro e seus generais de pijama, o mercado rentista de Paulo Guedes e os empresários da Fiesp de Paulo Skaf, nós não podemos ficar de fora do mundo civilizado.

Vida que segue.

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Balaio do Kotscho