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Esquerda sai do imobilismo e volta às ruas com Boulos

Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

08/06/2020 16h25

Domingo, 7 de junho de 2020.

Essa data poderá ser lembrada no futuro, quando se fizer a cronologia dos movimentos que levaram à queda do governo Bolsonaro, assim como o 27 de novembro de 1983, também um domingo, marcou o início do fim da ditadura militar, com o primeiro comício das Diretas Já, na praça Charles Miller, em frente ao estádio do Pacaembu.

Eu estava lá nesse dia, como jovem repórter da Folha, e saí frustrado porque a praça não ficou lotada por conta de divergências entre dirigentes do PT e do PMDB que organizaram o ato.

Havia lá umas 15 mil pessoas _ por coincidência, mais ou menos o mesmo número de manifestantes que foi nesse domingo ao largo da Batata, em Pinheiros, para protestar contra o governo, o fascismo e o racismo, e defender a democracia ameaçada.

"Quando as primeiras pessoas chegarem para a festa comício deste domingo, no Pacaembu, e a campanha em favor das eleições diretas ganhar definitivamente as ruas e praças no embalo de um anseio nacional, um grande desafio já terá sido vencido: o de unir, novamente, sob a mesma bandeira, acima de divergências e tendências várias, a classe política, os sindicatos e os mais representativos segmentos da sociedade civil. O parto não foi fácil nem tranquilo". Assim começava minha matéria publicada no dia desse primeiro comício, sob o título "Anseio nacional é mais forte do que as divergências".

O grande ausente foi o então governador de São Paulo, Franco Montoro, do PMDB, mas apenas dois meses depois ele comandou, ao lado de Ulysses, Lula e Brizola, o grande comício que levou mais de 300 mil pessoas no dia 25 de janeiro de 1984 à praça da Sé.

Desta vez, Lula não estava no palanque por causa da quarentena imposta pela pandemia do coronavírus, que dividiu os partidos de esquerda sobre comparecer ou não à manifestação. Também os movimentos antifascistas criados nos últimos dias pela sociedade civil decidiram não ir ao ato para respeitar o isolamento social que desaconselha grandes aglomerações.

Quem ocupou seu lugar foi Guilherme Boulos, do PSOL, do MTST e da Frente Povo sem Medo, que no início do seu discurso justificou sua decisão de manter o ato:

"Ninguém queria estar na rua agora. Todo mundo queria estar em casa se protegendo da Covid-19. O problema é que se criou uma escalada fascista no Brasil. Por isso, essas manifestações têm que acontecer".

Em outras 19 capitais, milhares de pessoas saíram às ruas nesse domingo, com as mesmas bandeiras contra o governo e o racismo (somente em outras quatro, houve manifestações a favor de Bolsonaro, mas foram pequenas).

Ao contrário dos sete domingos anteriores, desta vez o presidente não saiu do Alvorada para prestigiar seus seguidores, que pedem intervenção militar e o fechamento do Congresso e do STF.

Nesta segunda-feira, Bolsonaro passou recibo, mostrando que sentiu o baque, ao dizer na saída do Alvorada que as manifestações contrárias ao governo são "o grande problema do momento. Estão começando a colocar as mangas de fora". Para o restante do país, no entanto, o grande problema é a pandemia, que já matou mais de 35 mil brasileiros, mas para o presidente isso é coisa do "destino".

Para animar seus apoiadores, o presidente disse que quer "arrumar as coisas devagar, a começar pela primeira indicação para o STF, que farei em novembro".

Logo em seguida, Guilherme Boulos tuitou:

"Inacreditável! Mensagem de zap do Véio da Havan foi usada pela cúpula do Ministério da Saúde para justificar o desaparecimento dos mortos nos boletins nacionais da Covid. O combate à pandemia está nas mãos de milicianos e empresários sonegadores".

Com a manifestação do largo da Batata, a primeira após o início da pandemia, a esquerda saiu do imobilismo e quebrou o monopólío das ruas, que o governo vinha mantendo, com concentrações na praça dos Três Poderes e carreatas da morte pelo país, em apoio a Bolsonaro e pela reabertura do comércio.

Não houve a batalha que Bolsonaro esperava, mas, em São Paulo, a Tropa de Choque da PM reprimiu com violência um pequeno grupo de manifestantes que tentavam chegar à avenida Paulista, três horas após o final do ato no largo da Batata.

Só para lembrar: em 2013, nas jornadas de junho, também foi a ação violenta da PM paulista contra os estudantes do Movimento Passe Livre que desencadeou uma onda de protestos cada vez maiores em todo o país, o estopim das grandes manifestações que levaram ao impeachment de Dilma Rousseff.

Nas voltas que a vida dá, quanto mais se caminha, mais se volta ao mesmo lugar.

Em 1984, os partidos de oposição e a sociedade civil se uniram na luta pela volta da democracia.

Agora, tenta-se novamente formar uma frente ampla para impedir que a nossa jovem democracia morra asfixiada como George Floyd. Não está fácil.

Vida que segue.

Balaio do Kotscho