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Pós-pandemia: metade da população estará fora do mercado de trabalho

Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

14/06/2020 14h19

Se e quando a pandemia passar, os sobreviventes se depararão com uma trágica realidade: é a primeira vez em que menos da metade da população em idade de trabalhar estará ocupada, desde que começou a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios contínua (Pnad Contínua) do IBGE, em 2012.

Em abril, apenas 48,5% dos brasileiros ainda tinham trabalho formal, segundo estudo feito pelo economista Marcos Hecksher, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), publicado neste domingo pelo Globo.

"O tombo do mercado de trabalho na segunda quinzena de março, que se aprofundou em abril, foi bem maior do que o já indicado pelo IBGE e pelo Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), do Ministério da Economia, que mede o emprego com carteira assinada", diz o economista.

A taxa de desemprego não consegue retratar com precisão a dimensão da destruição de vagas com o avanço do coronavírus porque quem perdeu o emprego ainda não voltou a procurar outro por causa da pandemia, critério utilizado para ser incluído no universo dos desempregados.

Além disso, boa parte dos que ainda estão empregados tiveram seus salários suspensos ou reduzidos em até 70%.

Esta é a dramática realidade do mercado de trabalho, que não aparece nas previsões otimistas do ministro Paulo Guedes com a lenta retomada da economia.

O fator humano não entra nos cálculos do governo, que ainda quer reduzir pela metade o auxílio emergencial de R$ 600 nos próximos dois meses.

Com a quantidade de lojas e indústrias fechadas, mesmo após o fim do isolamento social, vai aumentar o número de brasileiros que irão pedir este auxílio e/ou o salário desemprego.

Guedes se limitará a dizer que o dinheiro acabou, sem apresentar nenhum plano para a criação de empregos, e que a situação só irá melhorar com a aprovação de reformas, como repete feito um realejo desde o início do governo.

A pandemia apenas agravou um cenário recessivo em que o PIB cresceu apenas 1% no ano passado e a taxa de desemprego continuava em torno de 12%.

A quarentena poderia ter servido para que a equipe econômica elaborasse um plano de ação com começo, meio e fim para o pós-pandemia. Até agora, não há nem sinal disso.

Com a inação do governo, o Brasil corre agora o risco de ser campeão em tudo: não só no número de mortos pela pandemia, mas também na taxa de desempregados e na queda do PIB.

Vida que segue.

Balaio do Kotscho