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O fracasso dos atos pró-Bolsonaro, cada vez menores

Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

14/06/2020 17h05

A cada semana, as manifestações em defesa do governo estão murchando em Brasília, mesmo quando o presidente Bolsonaro em pessoa ainda participava, acompanhado de ministros e generais.

Pelo segundo domingo seguido, ele não apareceu em frente ao Palácio do Planalto onde seus apoiadores se concentravam.

Embora o governador de Brasília tivesse proibido manifestações por decreto, apenas uns 50 devotos foram à praça dos Três Poderes enrolados em bandeiras brasileiras, mas nem saíram do lugar.

Em lugar do presidente, apareceu o ministro da Educação, Abraham Weintraub, de boné e camisa aberta no peito, para dar apoio ao grupo, repetir que tem que tirar os "vagabundos" de Brasília e defender sua "liberdade de expressão" para dizer o que pensa.

Um pequeno grupo ainda seguiu para o Setor Militar e se concentrou em frente ao Quartel General do Exército, mas lá havia mais policiais do que manifestantes pró-governo.

Mais patético e melancólico foi o ato programado pelos bolsonaristas para o Viaduto do Chá, no centro de São Paulo.

Ao meio dia, horário marcado para começar a manifestação, não havia quase ninguém.

Os organizadores alegaram que era hora de almoço, mas isso já se sabia quando escolheram o local e o horário.

Segundo matéria do UOL, quando havia cerca de 70 pessoas, um homem no alto do caminhão de som reconheceu que não se tratava de um grande protesto.

"Somos poucos, mas onde tiver uma ou duas pessoas, lá estarei. Foi o que disse nosso presidente, Jair Messias Bolsonaro".

Até o final do ato, os bolsonaristas não saíram da calçada em frente ao prédio da Prefeitura, conversando em pequenos grupos e falando ao celular, para descobrir o que aconteceu.

A poucos quilômetros dali, milhares de pessoas começaram a chegar à avenida Paulista para um protesto contra Bolsonaro e o racismo.

Foi o terceiro protesto contra o governo, reunindo uma fauna bem variada, de movimentos sociais e estudantis a torcidas organizadas dos grandes times da cidade, misturando bandeiras verde-amarelas e vermelhas, em torno de uma enorme faixa "Fora Bolsonaro".

Eram em sua maioria jovens, negros e mulheres defendendo o direito à vida com denúncias de violência policial nos bairros da periferia.

Ninguém sabe de onde surgiu uma faixa defendendo "ditadura proletária", que chamou muito a atenção dos repórteres da Globo News, mas ninguém explicou do que se tratava.

Como é que uma manifestação antifascista, em defesa da democracia, pode incluir algo tão fora de tempo, de lugar e de propósito? Também havia algumas bandeiras vermelhas com a foice e o martelo, para ressuscitar um perigo comunista, tão a gosto do governo. Muito estranho.

Mas não aconteceu nenhum incidente, com a polícia apenas acompanhando nas laterais a passeata, que foi do Masp até o final da Paulista, em direção ao Paraíso, numa polifonia e policromia de sons e cores, palavras de ordem e cantorias.

No balanço final do domingo de manifestações, havia muito mais gente contra do que a favor do governo.

Bolsonaro tem bons motivos para começar a se preocupar. A rua está fugindo do seu controle e o rebanho de seguidores vem diminuindo.

Vida que segue.

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Balaio do Kotscho