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Barroso no Roda Viva: um Brasil civilizado

Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

16/06/2020 12h58

Pretendia assistir só ao primeiro bloco da entrevista de Luís Roberto Barroso, ministro do STF e presidente do TSE, no Roda Viva desta segunda-feira, mas fui até o fim, com vontade de ver mais.

É muito raro no Brasil de hoje em dia encontrar uma autoridade pública que sabe do que está falando, respeita os interlocutores e os telespectadores, e se expressa numa língua que todo mundo entende.

Sem querer parecer erudito nem dono da verdade, sem fazer citações de jurisprudência e usar expressões em latim, tão ao gosto da magistratura, o ministro Barroso deu uma aula de civilidade, em meio à barbárie em que vivemos.

Contribuíram para isso os jovens entrevistadores (Luísa Roig Martins, do Valor; Bruno Boghossian, da Folha; Fernando Mello, do site Jota, Carolina Brígido, do Globo e Cláudio Dantas, do site O Antagonista), e a apresentadora Vera Magalhães, que só intervinha nos momentos certos, sem cortar o entrevistado.

A conversa fluiu por 100 minutos sem ruídos. Ninguém queria aparecer mais do que o outro. Um perguntava e o entrevistado respondia, sem fugir do assunto, como se tivessem ensaiado.

Por alguns momentos me senti assistindo a um debate na britânica BBC, mas estava na TV Cultura.

Para quem já participou e viu centenas de programas do Roda Viva, o mais antigo do gênero na televisão brasileira, que muitas vezes fazia lembrar mesas redondas de futebol no domingo à noite, com entrevistadores falando mais do que o entrevistado, interrompido a todo momento, foi uma agradável surpresa a edição desta semana.

Foram feitas todas as perguntas necessárias sobre esse momento caótico e insano que o país está vivendo, com a guerra do capitão de hospício e sua trupe contra o Supremo Tribunal Federal, mas Barroso passou o tempo todo tentando baixar a fervura, sem entrar em bola dividida.

"Não acho que haja um risco real de golpe", resumiu o ministro, minimizando os ataques de alucinados bolsonaristas ao STF.

Sobre o tema mais polemico, os processos que correm contra a chapa Bolsonaro-Mourão no TSE, que podem levar à cassação dos dois, Barroso contou que um emissário do presidente o consultou sobre o que pode acontecer, se haveria motivos para preocupação do Planalto.

"Se ele não fez nada de errado, não. Nós só vamos cumprir a lei, de acordo com as provas. Não é um julgamento político. É jurídico", garantiu, com um sorriso enigmático, deixando o suspense no ar.

Senti que há esperanças.

Vida que segue.

Balaio do Kotscho