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Organização criminosa e milícias: MP fecha o cerco a Flávio Bolsonaro

Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

24/06/2020 18h38

Está explicado o nervosismo e a posição defensiva de Jair Bolsonaro nesses últimos dias, em que parou de falar com a imprensa e de atacar o Poder Judiciário.

Há uma semana encontra-se recolhido nos palácios.

Mais cedo do que se previa, o Ministério Público do Rio de Janeiro deve denunciar o 01, o senador Flávio Bolsonaro, já nesta sexta feira, por três crimes: peculato, organização criminosa e improbidade administrativa no inquérito que investiga as "rachadinhas".

No pedido de prisão de Fabrício Queiroz, a Promotoria citou cinco vezes Flávio Bolsonaro como "líder da organização criminosa".

Mais do que o esquema de "rachadinhas", em que a estrutura montada por Queiroz desviava parte do salário dos servidores na Assembleia Legislativa para Flávio, quando ele era deputado estadual, o que atormenta os Bolsonaros é que na peça de acusação os promotores pretendem apontar vínculos sobre a relação de milicianos com o gabinete, segundo a revista Veja:

"Para o Ministério Público, o esquema da rachadinha serviu para financiar a milícia por meio de Fabrício Queiroz e do ex-policial Adriano Magalhães da Nóbrega, apontado como chefe do grupo de extermínio do Escritório do Crime, morto em fevereiro, durante uma operação policial no interior da Bahia".

São milicianos os dois ex-PMs que estão presos acusados do assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes.

A mãe e a ex-mulher de Nóbrega eram funcionárias fantasmas do gabinete de Flávio Bolsonaro, assim como a mulher e a filha de Queiroz. Outra filha trabalhava no gabinete de Jair Bolsonaro em Brasília quando era deputado federal.

É por isso que a defesa de Flávio já pediu várias vezes a paralisação das investigações e entrou com um pedido de habeas corpus, com o objetivo de tirar o caso da primeira instância para ser julgado pelo Órgão Especial do Tribunal de Justiça.

O habeas corpus será analisado nesta quinta-feira, dia 25. Caso seja deferido, serão anuladas todas as investigações feitas na 27ª Vara Criminal, sob o comando do juiz Flávio Itabaiana, que fundamentam a denúncia do MP para denunciar o parlamentar no dia seguinte.

Os advogados que assumiram a defesa de Flávio, depois de Queiroz ser preso numa casa de Frederick Wassef, o "Anjo", em Atibaia, alegam que o senador tem direito a foro privilegiado, o que já foi negado pelo STF em decisões anteriores.

No entendimento do Supremo, parlamentares só têm direito ao foro privilegiado quando os crimes foram cometidos durante o exercício do cargo e relacionados às funções desempenhadas.

Como Flávio agora é senador e os crimes denunciados foram cometidos durante o mandato de deputado estadual, o parlamentar não teria esse direito.

Desde antes da posse de Jair Bolsonaro, o chamado "escândalo Queiroz" persegue o clã presidencial, e ainda tem muitos esqueletos no armário.

Até agora, o ex-homem forte responsável pelas operações financeiras da família está em silêncio no presídio em Bangu, mas teme-se o que pode acontecer, se a sua mulher, Márcia Aguiar, que está foragida, for presa também.

A nova equipe de defesa, comandada por Rodrigo Roca, notabilizou-se na defesa de Sergio Cabral e de militares processados por crimes cometidos durante a ditadura.

O jogo é pesado. Só tem cachorro grande nesta história que pode mudar os rumos do governo e do país.

Vida que segue

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