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Os motivos de Bolsonaro para vetar a lei sobre fake news

Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

01/07/2020 17h54Atualizada em 02/07/2020 19h54

Atualizado às 18h50

Sem falar com a imprensa desde a prisão do amigo Queiroz, Bolsonaro rompeu o obsequioso silêncio que vem mantendo há 13 dias, ao desabafar com apoiadores nos jardins do Alvorada, depois da derrota sofrida pelo governo na terça-feira, com a aprovação pelo Senado do projeto de lei sobre fake news.

"Acho que, na Câmara, vai ser difícil aprovar. Agora, se for aprovado, cabe a nós ainda a possibilidade de veto. Acho que não vai vingar esse projeto, não".

Bons motivos não faltam para o presidente atacar o projeto, que procura estabelecer um mínimo de civilidade nas redes sociais, hoje controladas por milícias digitais de robôs que manipulam a opinião pública.

Fake news, para quem não sabe, é a versão chique para notícia mentirosa, falsa, inventada, para atacar adversários e louvar os próprios feitos.

Bolsonaro nunca se cansa de atribuir sua vitória em 2018 ao filho Carluxo, o 02, que montou a fantástica rede social do candidato. "Se não fosse ele, eu hoje não seria presidente", já chegou a dizer depois da vitória.

A mesma estrutura da campanha, que começou a ser construída ainda em 2014, para divulgar as viagens de Bolsonaro pelo país, foi levada por Carluxo para o Palácio do Planalto, com a mesma equipe, na montagem do chamado "gabinete do ódio", hoje alvo de investigações no Supremo Tribunal Federal e no Tribunal Superior Eleitoral.

Agências de checagem de notícias falsas revelam novos casos todos os dias.

Hoje mesmo, o Comprova, um consórcio formado por 28 veículos, entre eles o UOL, denuncia que "publicação usa fotos antigas como sendo de obras do governo Bolsonaro".

São manipulações grosseiras de textos e imagens para fazer propaganda do governo no submundo da internet, onde são replicadas milhares de vezes até se tornar verdade para os apoiadores do bolsonarismo.

"É falsa a combinação de imagens amplamente compartilhada em redes sociais para mostrar uma suposta evolução de obras públicas entre os governos dos ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2011) e Dilma Rousseff (2011-2016), do PT, e os primeiros 18 meses de mandato do presidente Jair Bolsonaro (sem partido)", diz a matéria.

Segundo o Comprova, duas das imagens que supostamente retratam projetos de infraestrutura concluídos durante o governo de Bolsonaro foram feitas, na verdade, nos mandatos de Lula e Dilma, e uma terceira foi publicada em um banco de imagens internacional anos antes da eleição de Bolsonaro.

Por coincidência, ainda hoje, durante um debate da Folha sobre censura na ditadura, a moderadora Fernanda Mena levou um documento oficial da Polícia Federal de 10 de junho de 1969, com 17 "recomendações" à imprensa brasileira. A primeira delas diz:

"Não divulgar nenhuma notícia falsa ou fato verdadeiro, parcialmente ou de maneira deformada".

Se a censura ainda estivesse em vigor, os autores dessa fake news certamente seriam punidos.

Nas voltas que a vida dá, agora é o governo do ex-capitão e seus generais que invoca a "liberdade de expressão" para poder continuar disseminando informações falsas, o que poderá constituir crime, se o projeto de lei das fake news for aprovado na Câmara.

O governo já orientou seus apoiadores, leia-se o Centrão, a votar contra o projeto. Mas, se por acaso, ele for aprovado, Bolsonaro já avisou que veta.

Não pode haver liberdade de expressão para quem se esconde sob codinomes nem quem aciona robôs. O nome disso é covardia.

Vida que segue.

Balaio do Kotscho