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Futebol sem torcida é como Carnaval sem música ou uísque sem álcool

Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

05/07/2020 19h02

Assisti neste domingo ao clássico Fluminense e Botafogo, pelas semifinais da Taça Rio, meu primeiro jogo de futebol ao vivo, após mais de 100 dias de rígida quarentena.

Foi também o primeiro jogo transmitido pela Globo, em meio à sua guerra particular com o Flamengo, e Bolsonaro no meio, mas esse assunto deixo para o Juca Kfouri.

Não gostei do que vi. É estranho demais, muito sem graça, mais ou menos como um baile de Carnaval sem música, fumar cigarro sem nicotina, dançar com a irmã ou tomar um trago de uísque diet, sem álcool.

Cheguei à conclusão que as torcidas são tão importantes para o futebol quanto os jogadores em campo.

São elas que fazem e movem o chamado espetáculo das multidões, comandam as emoções de quem está no campo ou em casa, empurram seus jogadores para a frente, pulam e cantam nas arquibancadas.

Primeiro país a voltar com o futebol, ainda sem torcida, os números do campeonato alemão são a prova disso: só 10% dos times mandantes venceram seus jogos.

Sem torcida, os jogadores ficam olhando para os técnicos, que não param de gritar à beira do campo até ficar roucos, como se os jogadores fossem de pebolim.

Verdade que os times de Botafogo e Fluminense também não ajudaram muito, com um futebol a léguas de distância do Flamengo, que está passeando no campeonato.

Aliás, acho que o Flamengo deveria disputar campeonatos na Europa para enfrentar adversários à sua altura.

Com o empate de 0 a 0 diante do Botafogo, o Fluminense se classificou para a final contra o Flamengo, que ganhou do Volta Redonda por 2 a 0, sem torcida nem televisão.

Nem as duas estrelas em campo _ Fred, no Fluminense, e o japonês Honda, no Botafogo _ escaparam da mediocridade generalizada em que os dois times se acotovelaram no meio de campo e não criaram chances de gol.

No Fla-Flu de quarta-feira, vai ser uma covardia. Só se o Sobrenatural de Almeida, do Nelson Rodrigues, que era tricolor, entrar em campo com o Fluminense poderá haver alguma surpresa.

Os mais otimistas dirão que, mesmo sem torcida, um futebolzinho aos domingos é melhor do que nada, ainda mais em meio a esse interminável confinamento na pandemia.

Mas confesso que me deu sono, e mais saudade ainda de ver um jogo do São Paulo com o estádio lotado, abafando os gritos dos técnicos que vão ficar todos roucos, de tanto pedir "pega, pega, pega!", "volta, volta, volta!, "sai, sai sai!", o coro monocórdico dos nossos estrategistas da bola, que rege os jogos nos estádios vazios.

Para voltar a alegria e o encanto do futebol aos domingos, depois da macarronada, ainda vai demorar.

Vida que segue.

Balaio do Kotscho