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Balaio do Kotscho

A "Lista de Mendonça": o corintiano PSP é um perigo para os neofascistas

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Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

25/07/2020 14h53

Paulo Sergio de Moraes Sarmento Pinheiro tem um nome tão grande que ficou conhecido apenas pela sigla PSP, como é chamado pelos amigos.

Carioca de 76 anos, professor aposentado de Ciência Política na Universidade de São Paulo, seu nome está associado a todas as lutas pelos Direitos Humanos no Brasil e no mundo, desde os tempos da resistência contra a ditadura militar (1964-1985).

.Ex-coordenador da Comissão Nacional da Verdade e ex-ministro do governo de Fernando Henrique Cardoso, atualmente ele é relator da ONU para a situação dos Direitos Humanos na Síria.

Entre outras credenciais, o governo brasileiro agora descobriu que PSP também é um perigoso líder do "movimento antifascista", incluído entre os 579 nomes da "Lista de Mendonça", que estão sendo monitorados numa ação sigilosa da Secretaria de Operações Integradas (Seopi) do Ministério da Justiça.

Nada como a boa e velha reportagem para denunciar o que o governo quer esconder.

Bolsonaro tem razão para não gostar de jornalistas profissionais e dar dinheiro público para as milícias digitais que o defendem nas redes tóxicas do "gabinete do ódio" investigado pelo Supremo Tribunal Federal.

Se não fosse o repórter Rubens Valente, meu colega aqui do UOL, não ficaríamos sabendo que Jair Bolsonaro criou por decreto, sigilosamente, um novo SNI (antigo Serviço Nacional de Informações) no Ministério da Justiça, apelidado de Seopi.

Em extensa e bem documentada reportagem publicada na sexta-feira, Valente relata a ação desse novo "serviço de inteligência", que preparou em junho um alentado dossíê sobre as atividades de um grupo de servidores federais e estaduais de segurança, entre os quais incluiu o professor Pinheiro e outros dois acadêmicos, Luiz Eduardo Soares e Ricardo Balestreri, a pretexto de serem antifascistas.

"Essa lista de pessoas monitoradas lembra em tudo, e por tudo, inclusive em número, a lista de pessoas `indesejáveis´ divulgada dias após a eleição de 2018 por eleitores do candidato vitorioso, em nítido tom de ameaça, pelo fato de proclamarem em pronunciamentos e subscrição de manifestos suas convicções democráticas", diz nota divulgada pela Comissão Arns de Direitos Humanos, da qual PSP é membro fundador e foi seu primeiro presidente.

Afirma ainda a nota que "não se poderia imaginar, nem admitir, se confirmadas as notícias hoje divulgadas [que não foram desmentidas], era que o próprio ministro da Justiça, sem nenhum pudor, patrocinasse ação de vigilância e de intimidação, com dossiês, fotografias e tudo mais, com dinheiro público, contra servidores do Estado e professores, a pretexto de serem antifascistas".

O Fórum Brasileiro de Segurança Pública também considerou a denúncia gravíssima: "Trata-se de uma medida arbitrária, que remete aos tempos da ditadura militar, e cujo intuito claro é o de intimidar e constranger servidores públicos da área de segurança que se posicionam contra as incontáveis ações e declarações beligerantes e radicais do atual presidente da República. A integração dos órgãos de segurança pública, missão primeira do Seopi, não pode ser aparelhada por uso político-ideológico do governo".

O relatório sobre "Ações de Grupos Antifa e Policiais Antifascismo" começou a ser elaborado em maio, depois de protestos em São Paulo e Curitiba, que levaram o presidente Bolsonaro a denunciar "grupos de marginais, terroristas, querendo se movimentar para quebrar o Brasil", plagiando Donald Trump nos seus discursos contra o movimento antirracista nos Estados Unidos. .

Esqueceram de incluir no documento as torcidas organizadas dos grandes times de futebol de São Paulo, tendo à frente os "Gaviões da Fiel", que foram os primeiros a ir às ruas em defesa da democracia.

Acabei de confirmar agora com o próprio que, além de antifascista, Paulo Sergio Pinheiro também é corintiano. Podem incluir no dossiê.

Se ainda fosse vivo, o cardeal Paulo Evaristo Arns, guru de PSP, que também era corintiano, já estaria preso.

Ninguém mais do que ele defendeu os Direitos Humanos e denunciou as atrocidades da ditadura, resumidas no livro "Brasil Nunca Mais".

Pensando bem, tem razão o pastor André Mendonça, ministro da Justiça: PSP é um perigo para esses neofascistas tupiniquins da aliança miliciano-religiosa-militar do governo da cloroquina.

Com seus óculos de fundo de garrafa, jeitão meio desajeitado, fala mansa de diplomata, sempre de bom humor, mesmo em meio às tormentas, esse meu velho amigo não deixa a gente desistir do Brasil.

Quem sobreviveu à Guerra da Síria não vai ter medo de dossiê do Seopi.

Vida que segue.