PUBLICIDADE
Topo

Balaio do Kotscho

De D. Paulo a D. Odilo, uma outra igreja em São Paulo

6.mar.2013 - O cardeal arcebispo da Arquidiocese de São Paulo, Dom Odílio Scherer (ao centro), participa de oração na basílica de São Pedro, no Vaticano - Lalo de Almeida/Folhapress
6.mar.2013 - O cardeal arcebispo da Arquidiocese de São Paulo, Dom Odílio Scherer (ao centro), participa de oração na basílica de São Pedro, no Vaticano Imagem: Lalo de Almeida/Folhapress
Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

06/08/2020 19h36

Li hoje na coluna de Mônica Bergamo uma notícia que me deixou ao mesmo tempo muito triste e perplexo.

Pensei muito se deveria escrever sobre esse assunto, mas tem certas coisas que a gente não pode deixar passar. Para isso, somos jornalistas.

Pela primeira vez nesta pandemia, vi o nome de D. Odilo Scherer, arcebispo de São Paulo, no noticiário sobre a tragédia do coronavírus, que já tirou mais de 10 mil vidas na nossa cidade.

Sob o título "O pão nosso", a coluna da minha colega da Folha informa que D.Odilo enviou uma carta aos bispos e padres de São Paulo para que eles voltem a coletar dinheiro dos fiéis nas igrejas para repassar ao papa, à CNBB e à própria arquidiocese. Ao mesmo tempo, comunica que todos os religiosos seguirão com seus vencimentos reduzidos em 40%.

Duvido que o papa Francisco tenha feito esse pedido de ajuda aos fiéis de uma cidade assolada pela pandemia e pelo desemprego, ainda mais ele que é um homem muito bem informado sobre o que acontece no Brasil, como já demonstrou em várias manifestações de solidariedade.

Há poucos dias, o papa recebeu uma carta assinada por 152 bispos brasileiros que relata a dimensão da crise sanitária, ambiental, econômica e política que se abate sobre o país. Esta carta não foi assinada por D. Odilo Scherer.

Levantamento feito pela CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) mostra que 436 padres diocesanos foram infectados pelo vírus e 21 morreram no país.

Por esse motivo, mesmo nas cidades como São Paulo, onde foi autorizada a reabertura dos templos, muitos ainda têm receio de reabrir as portas das igrejas católicas. A pandemia não acabou.

Com grande parte das igrejas fechadas há mais de quatro meses, não puderam ser feitas as tradicionais coletas da sacolinha, que são normalmente enviadas para as várias instâncias da igreja.

Mas, apesar disso, D. Odilo recomenda que "mesmo aquelas que estavam previstas para o primeiro semestre devem ser encaminhadas". De que jeito?

Dizendo estar ciente dos problemas das paróquias, sem entrar em detalhes, o arcebispo lembra que a arquidiocese "também passa por dificuldades".

Nem faz tanto tempo, a comunidade católica de São Paulo era comandada por um santo cardeal, D. Paulo Evaristo Arns, com quem tive a honra de trabalhar por mais de 20 anos na Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo, e também no projeto do livro "Brasil Nunca Mais", sobre as atrocidades praticadas pela ditadura militar.

Custo a crer que se trata da mesma igreja. Logo depois de assumir o cargo, uma das primeiras providências de D. Paulo foi vender o Palácio Episcopal para construir casas na periferia. Quando o conheci, ele estava morando num modesto sobrado de uma rua sem saída no Sumaré.

Nunca vi D. Paulo pedir nada aos padres, mas apenas oferecer ajuda porque ele sabia das condições difíceis em que viviam. Hoje, um padre ganha cerca de dois salários mínimos por mês.

No seu tempo, o meu amigo Paulo pedia ajuda era às ricas igrejas da Europa, para tocar projetos sociais e defender os perseguidos políticos do regime.

Com a coragem que nunca lhe faltou, D. Paulo denunciava as torturas aqui dentro e pelo mundo, o que o fez ser respeitado pelos líderes de todas as religiões e ser recebido por chefes de governo.

Mesmo proibido pela polícia e pelas autoridades militares, ele fez questão de comandar, ao lado do jornalista Audálio Dantas, do rabino Henry Sobel e do pastor Jaime Wright, o ato ecumênico que lotou a catedral da Sé para protestar contra o assassinato de Vladimir Herzog nos porões do DOI-CODI.

No momento em que os fantasmas do autoritarismo e da estupidez voltam a assombrar a democracia brasileira, homens como D. Paulo fazem muita falta.

Certamente ele assinaria a "Carta ao Povo de Deus", junto com os 152 bispos, e ainda faria questão de entregá-la pessoalmente ao papa Francisco.

D. Paulo era o cardeal dos pobres, dos perseguidos, dos desvalidos. Vivia entre e para eles.

Vida que segue.

.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Balaio do Kotscho