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Balaio do Kotscho

Já começou a bandalha: promotores paulistas querem furar fila da vacinação

Quando as togas e as fardas falam mais alto: quem pode chegar primeiro nas filas de vacinação que ninguém sabe quando começa? -
Quando as togas e as fardas falam mais alto: quem pode chegar primeiro nas filas de vacinação que ninguém sabe quando começa?
Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

03/12/2020 15h17Atualizada em 04/12/2020 10h26

É inacreditável, mas já era previsível.

A vacina ainda nem chegou ao Brasil, o Ministério da Saúde está mais perdido do que cachorro em dia de mudança, mas em São Paulo um grupo de promotores públicos já se antecipou para furar a fila da vacinação.

O procurador-geral de Justiça, Mario Luiz Sarrubo, deu apoio à iniciativa e se ofereceu para "pessoalmente se empenhar em apresentar esse pleito ao governo do Estado".

A justificativa dada por suas excelências é uma gracinha, como diria a Hebe Camargo:

"Não é uma questão de egoísmo em relação a outras carreiras, mas tendo em vista notadamente os colegas do primeiro grau, que trabalham com audiências, atendimento ao público e outras atividades em que o contato social é extremamente grande e faz parte do nosso dia a dia", diz a carta do promotor Roberto Barbosa Alves, que pediu para a categoria ser incluída em uma das primeiras etapas prioritárias da vacinação contra a covid-19.

"Que beleeeeza!", diria o narrador esportivo Milton Leite quando alguém pisa na bola.

Não se trata de egoísmo, doutores promotores, mas de um descarado privilégio o que vocês estão pedindo.

Está aberta a temporada de carteiradas

Se a moda pega, porque não incluir na lista de exceções também os meritíssimos juízes, todos os funcionários dos fóruns, os jornalistas que cobrem as audiências e julgamentos, os coletores de lixo dos tribunais, os policiais militares que garantem sua segurança e os garçons do cafezinho?

Na República Corporativa do Brasil, em que todos reivindicam isonomia nos privilégios e penduricalhos, logo aparecerão pedidos similares de oficiais das Forças Armadas, parlamentares, ministros, presidentes de estatais, servidores dos Três Poderes e todas as categorias que foram preservadas nas reformas trabalhista e previdenciária.

Reportagem de Daniela Arcanjo, na Folha, relata que o pedido para furar a fila foi feito em reunião do Conselho Superior do Ministério Público, no dia 24 de novembro, e consta da ata publicada no site da instituição. Mais tarde, o MP-SP se manifestou afirmando que a definição das autoridades sanitárias de São Paulo e do Brasil "evidentemente, será plenamente acatada pela instituição".

Por determinação do Ministério da Saúde anunciada esta semana, a vacinação contra o coronavírus deve começar pelos profissionais de saúde, idosos a partir dos 75 anos, população indígena e quem tem mais de 60 anos e viva em asilos ou instituições psiquiátricas.

Em qual desses casos podem ser incluídos os promotores de qualquer idade, que se aposentam mais cedo do que a turma do INSS, têm assistência médica gratuita, auxílio para tudo quanto é coisa e podem circular em carros oficiais com motorista?

Só faltou declararem greve

O que eles querem, portanto, é simplesmente furar a fila, como se diz no popular, e dar uma banana para os simples mortais que não têm acesso ao governador.

Nota do Ministério Público de São Paulo inclui os promotores nas "parcelas da população mais vulneráveis à covid-19, tanto do ponto de vista médico como social" e garante que vai acatar o que for determinado pelas autoridades sanitárias.

Só faltava os promotores não acatarem o cronograma do Ministério da Saúde e decretarem greve da categoria.

Mais vulneráveis que eles são os milhões de moradores das favelas e das ruas do Brasil, os balconistas do comércio que passam o dia atendendo o público, os professores das escolas da periferia, os empregados domésticos e todos os que dependem de transporte público para trabalhar, quando têm emprego.

Tapa na cara

Ao ler esta notícia hoje de manhã no UOL, senti um tapa na cara.

Com 72 anos de idade e 56 de trabalho como jornalista — esta sim, uma profissão de alto risco —vou esperar minha vez na fila, na segunda fase da vacinação, que ninguém ainda sabe quando vai começar no Brasil.

Se tivéssemos governo, ninguém ousaria assinar uma carta como essa dos promotores, mas não duvido nada que eles sejam bem-sucedidos.

Pensei que ninguém nem nada mais fosse capaz de me indignar, diante de tantas barbaridades diárias.

Peço desculpas aos leitores pelo desabafo, mas não dá mais para ficar calado.

Vida que segue.

O promotor Roberto Barbosa Alves afirma que não existe qualquer "carta assinada" por ele ou por outro membro da instituição solicitando a inclusão de promotores como prioritários para a vacinação contra a covid-19. O assunto teria sido "aventado", oralmente, no Conselho Superior da instituição por um integrante do colegiado. Segundo a nota publicada pelo promotor, "o tema não foi debatido e muito menos votado, uma vez que compete única e exclusivamente às autoridades sanitárias estabelecer de que forma transcorrerá a vacinação".

Errata: o texto foi atualizado
A primeira versão do texto creditava a reportagem citada da Folha de S.Paulo a Daniela Araújo, quando a repórter se chama, na verdade, Daniela Arcanjo. A frase foi corrigida.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.