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Balaio do Kotscho

"A construção de um juiz acima da lei": vídeo faz a autópsia da Lava Jato

Vaza Jato mostra que Moro e Dallagnol não travaram a luta do bem contra o mal: a autopsia da Lava Jato revela um crime continuado - Theo Marques/UOL
Vaza Jato mostra que Moro e Dallagnol não travaram a luta do bem contra o mal: a autopsia da Lava Jato revela um crime continuado Imagem: Theo Marques/UOL
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Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

08/02/2021 15h24

Estreia hoje, às 21 horas, no canal da TV GGN (www.youtube.com/tvggn) o vídeo ""Sergio Moro: a construção de um juiz acima da lei", produzido por um grupo de jornalistas investigativos que acompanham a operação desde o início, em 2014.

Em 73 minutos, eles fazem uma verdadeira autopsia da Lava Jato e dissecam o "modus operandi" do ex-juiz Sergio Moro e seus comparsas, os procuradores da força-tarefa da República de Curitiba, chefiada por Deltan Dallagnol. Na verdade, como o vídeo mostra, quem mandava em todos eles era Moro.

Com reportagens e narração de Luís Nassif e Marcelo Auler, que participam de uma conversa com os internautas a partir das 20 horas, no mesmo canal, o vídeo apresenta provas e depoimentos de personagens centrais, desmontando uma a uma as diversas versões oficiais já contadas em filmes e livros, para fazer de Moro & Dallagnol dois "heróis nacionais" do combate à corrupção, louvados pela grande mídia nacional e com o beneplácito das instâncias judiciais superiores.

Tive a oportunidade de assistir ao documentário neste final de semana, em meio às revelações diárias dos inacreditáveis diálogos mantidos entre o julgador e os acusadores, que fazem um verdadeiro passeio pelo Código do Processo Penal, dando uma banana para o devido processo legal e fazendo as suas próprias leis.

Não consegui tirar os olhos da tela do computador nem para pegar um copo d´água na cozinha.

Minha indignação foi crescendo com o cinismo e a desfaçatez dos personagens, toscos e provincianos, que não tinham limites para atingir seus objetivos centrais, que eles não escondiam: destruir a Petrobras e a indústria pesada nacional, o sistema político-partidário do país, derrubar o governo de Dilma Rousseff e condenar e prender o ex-presidente Lula, abrindo caminho para a entrega do pré-sal a grupos estrangeiros, consumada com a eleição de Jair Bolsonaro, de quem Sergio Moro se tornaria ministro da Justiça.

Antes de inaugurar a Lava Jato, Sergio Moro já vinha cometendo todo tipo de arbitrariedades no Paraná, desde a ofensiva contra pequenos agricultores por suposta ligação de sua cooperativa com o PT, à perseguição a advogados e empresários que atravessassem seu caminho de justiceiro seletivo.

Já em 2013, antes da Lava Jato, o ministro Celso de Mello, decano do STF que se aposentou no ano passado, já advertia seus pares do tribunal que Moro agia "como magistrado travestido de investigador", mas não foi ouvido.

Para começo de conversa, a Lava Jato jamais poderia ter ficado nas mãos da 13ª Vara Criminal de Curitiba, porque nenhum dos crimes investigados aconteceu no Paraná e os réus moravam em outros Estados.

Do Paraná era apenas o doleiro-delator Alberto Yousseff, um velho conhecido de Sergio Moro desde o escândalo das contas CC-5 do Banestado, em que ninguém foi punido, e que se tornaria um personagem central na Lava Jato depois de fazer delação premiada.

Desmascarados, primeiro pela Operação Vaza Jato, desencadeada pelo site The Intercept no ano passado, quando os diálogos comprometedores entre Moro e seus procuradores vieram a público também em outros órgãos de imprensa, e agora, com o sigilo das gravações levantado pelo ministro Ricardo Lewandowski, na semana passada, fechou-se o cerco à maior aberração jurídica já produzida no país.

Dia após dia surgem novas revelações na imprensa mostrando as relações promíscuas da Lava Jato com o Ministério Público da Suíça, o FBI, o Departamento de Justiça e a embaixada americana no Brasil, além da joint-venture com órgãos da imprensa brasileira, que recebiam os pratos feitos dos vazamentos seletivos de Curitiba.

Meses antes de fechar acordo de delação premiada com a cúpula da Odebrecht, diálogos em chat do Telegram entre os procuradores revelam que eles repassavam para o Ministério Público da Suíca nomes de suspeitos de envolvimento em casos de corrupção, como relatam hoje o correspondente Jamil Chade, e a repórter Silvia Ribeiro, do UOL, no Rio.

Nessa troca de informações, os procuradores da Lava Jato sempre pedem sigilo absoluto. Por que será? Estavam fazendo alguma coisa acima da lei? Dallagnol chega a fazer no grupo uma consulta sobre o repasse a "americanos e suíços" da planilha com as penas dos delatores, sob a condição de confidencialidade.

Pegos em flagrantes delitos, Moro e seus procuradores recorreram ao STF para impedir o acesso da defesa do ex-presidente Lula às mensagens, vazadas por hackers e apreendidas na Operação Spoofing da Polícia Federal.

Alegam que as gravações foram obtidas de forma criminosa e não há como provar sua veracidade. Não se lembram de ter falado o que falaram.

Nesta terça-feira, o STF decide o destino das mensagens num julgamento que pode servir de termômetro para outro caso, o do recurso em que os advogados de Lula pedem o reconhecimento da suspeição de Sergio Moro e a anulação das condenações.

Mas agora o estrago já está feito _ para a economia nacional, para a vida política e para os réus selecionados por Moro & Dallagnol na construção do Partido da Lava Jato, que chegou ao poder, mas dele já foi ejetado.

Assistam ao vídeo para entender como o Brasil chegou ao atual estado de calamidade pública permanente.

Vida que segue.