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Balaio do Kotscho

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

General Villas Bôas e capitão Bolsonaro: a conspiração dos ressentidos

Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

12/02/2021 19h05

Se tem uma característica comum de personalidade entre bolsonaristas civis e militares é o ressentimento, a raiva por muito tempo contida, a mágoa guardada no armário, o rancor, a sede de vingança.

Quem acompanhou a carreira militar do então tenente Bolsonaro, reformado compulsoriamente como capitão, aos 33 anos, após conspirar contra seus superiores, tem dificuldades para entender como foi possível receber o apoio decisivo do comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, para se eleger presidente da República, três décadas depois.

Quando o ex-presidente Lula era franco favorito para voltar ao cargo, mesmo preso pela Lava Jato em Curitiba, coube ao general Villas Bôas divulgar a versão final de um pequeno texto mal redigido, durante dois dias pelo Alto Comando do Exército, dando um ultimato ao Supremo Tribunal Federal para impedir a liberdade e a candidatura do petista.

"Asseguro à Nação que o Exército Brasileiro julga compartilhar o anseio de todos os cidadãos de bem de repúdio à impunidade e de respeito à Constituição, à paz social e à Democracia, bem como se mantém atento às suas missões constitucionais", tuitou o general, a tempo de entrar numa nota lida no final do Jornal Nacional.

Diante da clara ameaça, agachou-se o STF e pavimentou-se desta forma o caminho para a volta dos militares ao poder, com a vitória do capitão, que tinha a metade das intenções de votos de Lula na pesquisa Datafolha, em abril. A providencial facada de Juiz de Fora, e a fuga do candidato dos debates finais, fizeram o resto do serviço, para consumar esta grande tragédia que assola o país.

Juntaram-se ali dois ressentimentos e uma vingança: a do capitão contra os generais, que o defenestraram do Exército, e destes contra os civis que voltaram ao poder, depois de 21 anos de ditadura militar. Os militares tinham medo das conclusões da Comissão da Verdade sobre os crimes da ditadura militar. Agora são obrigados a mentir todos os dias para defender os crimes de Bolsonaro, como faz o general da ativa Eduardo Pazuello, ministro da Saúde.

Entre os tais "cidadãos de bem" citados pelo general, destacavam-se os bispos da grana das seitas neopentecostais, os agrotrogloditas da Amazônia acossados pela fiscalização do Ibama, os camisas amarelas de Moro do combate à corrupção (dos outros), os sonegadores de impostos e toda a elite da banca do especulador Paulo Guedes, economista menor rejeitado pelos meios acadêmicos, os marombados e marombadas das academias, os milicianos do Rio de Janeiro, amigos do poderoso Fabrício Queiroz, as sub-celebridades do meio artístico e todos aqueles ressentidos que, por algum motivo, não deram certo na vida _ além, é claro, dos militares que tinham perdido suas boquinhas, penduricalhos e agrados dos tempos da ditadura, já devidamente restituídos pelo capitão.

Formou-se assim o saco de gatos e ratos da mais fina brasilidade, expandido pelos devotos e robôs humanos plantados nas redes sociais, que engordaram o bolsonarismo com o gado que andava disperso no pasto.

O que já se sabia sobre as origens e motivações do golpe jurídico-parlamentar-militar, desfechado em 2016 e consumado em 2018, está agora contado pelo próprio mentor no livro "General Villas Bôas: Conversa com o comandante", depoimentos ao pesquisador Celso Castro, da FGV.

Uma dessas conversas do general, de que pouca gente se lembra, foi com Michel Temer, que ele não conhecia pessoalmente, quando o vice de Dilma Rousseff começou a conspirar contra a presidente, juntando tucanos derrotados pelo PT com o baixo clero do Centrão de Eduardo Cunha, de onde emergiu a figura de Jair Bolsonaro.

Sem nunca ter feito nada de notável na vida militar, além de planejar atentados contra quartéis, para exigir maiores salários, nem nos seus 28 anos de deputado de fundo de plenário, Bolsonaro agora manda em todos eles: nos generais do Planalto e nos caciques do Centrão, passando a boiada não só na Amazônia e no Pantanal, mas no Congresso e nos partidos, no STF, na Polícia Federal, na Abin, na Receita Federal, na PGR, na Lava Jato, no Posto Ipiranga de Paulo Guedes, nos potentados da Faria Lima, na OMS, na ONU, nos cartolas da CBF, onde mais?

Nunca um presidente tão fraco e despreparado teve tanto poder nas mãos. Pois esse é agora grande o perigo que corremos.

Sem enfrentar por ora risco iminente de impeachment, Bolsonaro vai querer fazer todo o mal que ainda não fez. Só tem medo de ser julgado num Tribunal Penal Internacional por crime contra a humanidade. .

Para atingir seus objetivos, quer agora liberar armas para todos os devotos e áreas indígenas para o garimpo, nomear interventores para as universidades federais, acabar com o ensino público e os direitos das minorias e, se for possível, revogar a Lei Áurea e fechar a Justiça do Trabalho.

Que belo serviço o general Villas Bôas prestou ao país, "tudo dentro da legalidade", como disse no livro, deixando como legado o governo genocida do capitão Jair Bolsonaro, que só queria explodir quartéis, mas está destruindo um país inteiro.

A conspiração dos ressentidos ainda está em marcha. O rancor mata.

Na quinta-feira, quando o Brasil registrou o recorde de 1.452 mortes pela pandemia em 24 horas, o presidente disse apenas:

"Não adianta ficar em casa chorando".

Então, acho melhor mudar o final da coluna.

Em vez de vida que segue, melhor dizer: mortes que não acabam.

Até quando?

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL