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Balaio do Kotscho

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Sonho do capitão pescador é um país sem jornais nem jornalistas

Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

16/02/2021 15h38

O ódio do capitão à imprensa profissional não é gratuito.

É assim que ele alimenta os ataques sórdidos dos seus milicianos digitais, que ocupam cada vez mais espaço na internet, e faz um agrado aos bolsonaristas fiéis, em sua campanha anti-vacinação.

Faz parte do seu projeto deste napoleão de hospício para controlar todas as instituições, eliminar a oposição e governar por decreto, como vem fazendo, em parceria com os militares e o Centrão, sob as bençãos do mercado e dos bispos da sacolinha.

Do nada, entre uma pescaria e um passeio de jet-sky em São Francisco do Sul (SC), o capitão presidente resolveu dar uma entrevista exclusiva ao filho Eduardo, caminhando pela beira-mar.

"O certo é tirar de circulação _ não vou fazer isso porque sou um democrata (riso sarcástico) _ tirar de circulação Globo, Folha de S. Paulo, Estadão, que são fábricas de fake news".

Além de fechar os três principais jornais do país, o presidente sonha também em assumir o controle das mídias sociais, depois de ter sido bloqueado no Facebook por ter disseminado notícias falsas sobre a pandemia, entre outras fake news e discursos em defesa das armas e da cloroquina.

Não satisfeito com a grande rede bolsonarista de rádio e televisão, movida a verbas de propaganda do governo, e liderada por Record, SBT e Jovem Pan, o führer caboclo avança sobre quem não se curva aos seus desmandos, em defesa da vida e da democracia ameaçadas pela pandemia e pelo governo.

Como Bolsonaro não bebe, fiquei ainda mais preocupado com o monólogo desconexo do vídeo gravado no mar e rapidamente divulgado por Eduardo Bolsonaro nas redes sociais.

Ao misturar o spray milagroso contra a covid do íntimo amigo Benjamim "Natanael", primeiro-ministro de Israel, com maior taxação e controle das plataformas sociais para se defender do aumento dos combustíveis, o capitão compôs um legítimo "samba do crioulo doido" em pleno carnaval sem carnaval.

Por coincidência, nesta Terça-feira Gorda, comemora-se o Dia do Repórter, um velho ofício que, se dependesse do presidente, seria extinto.

Ao ameaçar a circulação de jornais, o capitão também coloca em risco a nossa profissão, mas não vi até agora nenhuma reação das nossas entidades de classe nem da classe política contra mais essa agressão à imprensa, que começou antes de Bolsonaro tomar posse.

Às vésperas da eleição de 2018, o capitão já havia feito um delirante discurso, exibido ao vivo na avenida Paulista, para ameaçar seus inimigos _ entre eles, a Folha de S. Paulo, que esta semana completa 100 anos.

Depois de dizer que a Folha já tinha morrido, prometeu: "Vocês não terão mais verba publicitária do governo", como se a sobrevivência do jornal dependesse disso.

Em 1979, durante uma grave de jornalistas, um gaiato pichou nos muros: "Não leia jornais. Minta você mesmo".

É exatamente o que Bolsonaro vem fazendo, desde que assumiu a Presidência da República.

Vida que segue.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL