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Balaio do Kotscho

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Nada como poder interagir na rede com pessoas que têm nome e sobrenome

Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

25/02/2021 16h16

"A partir de agora o seu nome ficará visível no comentário".

Essa singela providência tomada pelo UOL na segunda-feira muda completamente a relação entre autores e leitores de textos na internet.

Aquela velha pergunta _ "Você sabe com está falando?" _ ganhou outro sentido para saber quem é nosso interlocutor do outro lado da tela. .

Sim, é preciso saber com quem a gente está falando nas redes sociais, infestadas por robôs, hackers, bots e outros bichos, que se identificam com siglas, senhas, codinomes ou alcunhas para se esconder na covardia do anonimato.

É muito bom saber que nosso interlocutor é uma pessoa em carne e osso, com nome e sobrenome, que fica responsável por aquilo que escreve.

Promover a interação entre emissores e receptores de notícias e opiniões, democratizando a informação, foi uma das grandes conquistas dessa revolução digital que mudou as comunicações humanas.

O vale tudo na terra de ninguém, sem lei nem normas para o uso civilizado deste instrumento, desde o Fla-Flu político que assolou a última campanha presidencial, com os disparos em massa de fake news, desinformação e ataques aos adversários por exércitos digitais, tornou inviável a interação com quem mantem colunas e blogs produzidos por jornalistas profissionais, com nome e sobrenome, nas diferentes plataformas.

Como dialogar com quem se dedica 24 horas por dia a publicar mensagens mentirosas e criminosas, com graves ataques e ofensas ao autor e a terceiros, que não têm como se defender, num verdadeiro assassinato de reputações que fica impune?

Isso não tem nada a ver com divergência de ideias, posições políticas ou informações conflitantes.

Não era como agora, nos primórdios deste blog, em 2008, no portal IG, eu me lembro que fui obrigado a fazer moderação dos comentários, que muitas vezes passavam de mil por dia, a pedido da empresa para evitar problemas judiciais.

Eu lia todos os comentários, como até hoje, mas só respondia a alguns poucos internautas que propunham um bom debate de ideias.

Alguns deixaram de frequentar o Balaio, mas entraram outros que encontraram um espaço mais amigável. Fiquei amigo de muitos deles até hoje.

O mesmo vejo que está acontecendo agora nestes primeiros dias com a nova regra do UOL.

Pode cair a quantidade de comentários e a audiência, mas ganha-se em qualidade para este espaço público aberto a quem quer discutir ideias, sem atacar o mensageiro.

Se e quando possível, gostaria até que os internautas pudessem também colocar uma foto, além dos nomes, para a gente poder conversar olho no olho, ainda que por meio da telinha.

Tentarei escrever menos sobre a cena política, que nos deprime e degrada, e mais sobre a vida real dos brasileiros, assim que for vacinado e puder voltar a sair de casa.

A interação é a melhor coisa da internet (daí o nome). Só não dá mais para ficar explicando que a terra não é plana, o homem já chegou à Lua, a imprensa não é comunista, o filho do Lula não é dono da Friboi, a vacina não vai fazer ninguém virar jacaré e o STF não proibiu o presidente de governar.

Diante dos robôs das ideias fixas, no entanto, fica parecendo que a gente está conversando com as paredes ou um gravador e perdendo tempo.

Vamos aproveitar melhor o nosso tempo e esse espaço para responder a uma pergunta bem simples: como poderemos sair desse buraco em que nos metemos?

É o que todo mundo quer saber, enquanto a vacina não vem.

Dialogar, interagir, discordar, trocar informações e opiniões, tudo isso pode nos ajudar a encontrar as respostas.

Ninguém é dono da verdade, nem eu. Acabou o monopólio dos "formadores de opinião".

Agora que eu sei quem são vocês, ficou tudo melhor, muito mais civilizado.

Apareçam sempre.

Vida que segue.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL