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OPINIÃO

Aprovação a Bolsonaro cai pela primeira vez abaixo de 30%: o vento virou?

Mulheres com faixa "Fora Bolsonaro" em passeata na avenida Paulista, no dia 8 de março do ano passado Imagem: Gabriela Cais Burdmann/UOL
Ricardo Kotscho

Colunista do UOL

04/03/2021 15h43

Tem alguma notícia boa para mim?, costumo perguntar às raras pessoas que aparecem no meu apartamento.

Para minha surpresa, Edilson, o faxineiro do prédio, levantou os dois braços para anunciar em alto e bom som: "Eu tenho!".

Foi o primeiro que me deu uma notícia positiva no último ano e logo eu quis saber qual era.

"Nós continuamos vivos, benza a Deus!", exclamou, e completou: "Isso é o mais importante".

De fato, diante do colapso sanitário do país, com quase 2 mil mortes por dia e chegando aos 11 milhões de contaminados pelo coronavírus, sobreviver neste país tornou-se o principal desafio das nossas vidas.

Mas eu encontrei outra notícia boa, dependendo do ponto de vista do cidadão: nova pesquisa do Ipec (Inteligência, Pesquisa e Consultoria), divulgada hoje pelo jornal O Globo, mostra que a aprovação do governo Bolsonaro caiu abaixo dos 30% pela primeira vez desde a sua posse.

A gestão Bolsonaro é considerada ótima/boa por 28% dos entrevistados e rejeitada por 39%, que a avaliam como ruim/péssima.

Será que começou a cair a ficha do gigante adormecido em berço esplêndido, vendo o país ser destruído sem reagir?

O levantamento foi feito entre os dias 18 e 23 de fevereiro _ antes, portanto, da explosão de casos e mortes por covid no pior momento da pandemia que mergulhou o país numa crise sanitária sem precedentes. .

Formado por ex-executivos do Ibope, que parou de fazer pesquisas de opinião pública, o Ipec destaca a fidelidade do eleitorado evangélico, do qual faz parte o faxineiro, em que Bolsonaro tem 38% de avaliação positiva.

Em todos os outros segmentos da sociedade, a pesquisa registrou perda de apoio ao presidente, que se mantinha acima da faixa dos 30%, até o final do ano passado, e caiu após o fim do auxílio emergencial.

Agora é preciso esperar as próximas pesquisas para ver o efeito do novo auxílio, no valor médio de R$ 250 (um quarto do salário mínimo), aprovado hoje em segundo turno pelo Senado, e que ainda vai para a Câmara.

Isso explica o embate de Bolsonaro com a equipe de Paulo Guedes, para aprovar logo uma nova ajuda, sem se preocupar com o ajuste fiscal. O que está em jogo é a única coisa que lhe interessa: o projeto da reeleição em 2022.

De olho no terço do eleitorado que considera o governo regular, o auxílio emergencial é a única forma que o governo tem de recuperar e manter a popularidade até lá, como explica a cientista política Luciana Veiga, professora da Unirio:

"É um eleitor muito prático, menos apegado a questões ideológicas, e que pode oscilar a depender do impacto do governo federal em sua vida. É aí que entra o auxílio. Por outro lado, este eleitor também é mais pressionado pelo cenário da saúde, já que depende da rede pública".

Outro fator que pode ter impactado o resultado foi a intervenção de Bolsonaro na Petrobras ao demitir seu presidente, que aconteceu durante a realização da pesquisa, lembra a CEO do Ipec, Márcia Cavalari, que ocupava o mesmo cargo no Ibope:

"Esta é uma das hipóteses para que a rejeição ao governo seja mais alta entre os eleitores com maior remuneração do que entre os mais pobres. Para o segmento de menor renda, a troca pode não ter soado tão ruim, por conta do discurso de baratear o combustível", incluindo o gás de cozinha.

Outra medida que Bolsonaro pretende adotar em breve é baratear a conta de luz, para desgosto de Paulo Guedes, que está cada vez mais enfraquecido no cargo.

Em sua nova versão, cada vez mais populista, o presidente ouve menos os generais e economistas, e se joga nos braços do Centrão, sabendo que se a popularidade continuar caindo eles não terão o menor pudor em abandoná-lo na beira da estrada, como fizeram com Dilma Rousseff.

Embora diga que não lê jornal nem vê telejornais, foram as pesquisas que recebe diariamente no Palácio do Planalto que o levaram a dar um cavalo de pau na vacinação trôpega de Pazuello, e mandou o general agora comprar tudo o que tiver no mercado, com ou sem a aprovação da Anvisa.

Mas essa guinada embute um perigo: quanto mais brasileiros forem vacinados, mais cidadãos poderão sair às ruas para pedir o "Fora Bolsonaro", que já tem data marcada.

Como informa o Painel da Folha, em encontro com cerca de 500 dirigentes de partidos, centrais sindicais e movimentos populares, o movimento "Fora Bolsonaro" decidiu marcar para o dia 24 de março a próxima mobilização nacional contra o presidente da República.

Será que o vento começou a virar? Já não era sem tempo.

Em tempo: antes que alguém sinta falta, informo que sairei do ar por alguns dias porque vou fazer uma cirurgia amanhã. Espero voltar logo ao batente.

Vida que segue.

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