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Balaio do Kotscho

Domingão no hospital: do outro lado da tela da TV, a vida continua

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Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

21/03/2021 13h07

Manhã de domingo de sol, céu apaixonadamente azul, sem uma única nuvem, silêncio nas ruas, quase sem carros.

Após o café, desligo a televisão e deixo o quarto do hospital onde me recupero de mais uma cirurgia.

No corredor, onde as portas dos quartos ficam abertas, vejo pacientes inertes nas camas, alguns fora de combate, respirando por aparelhos.

A caminho do belo jardim no alto do prédio, cruzo com médicos e enfermeiros, todos param para me desejar bom dia, com um sorriso no rosto.

Cada um segue a sua rotina de mais uma jornada, tentando salvar vidas de pacientes crônicos ou em estado grave.

Cuidadores procuram uma sombra para estacionar as cadeiras de rodas, as pessoas falam baixo para não incomodar os vizinhos, comentam a beleza que está o dia.

Não se fala de grandes planos para a vida pós pandemia, mas apenas da felicidade de continuar respirando, enquanto a hora do almoço não chega.

Neste momento de paz em meio à guerra, ninguém está interessado em ler ou ouvir notícias lá do Brasil que está desmanchando.

Ficar só olhando a paisagem, coisa que há tempos eu não me permitia, faz um bem danado, dá até para prestar atenção nas batidas do coração.

Aqui todos são iguais, enfermos e enfermeiras, médicos e funcionários, uns cuidando dos outros.

Não há competição, ninguém é dono da verdade. O único objetivo é zelar pela saúde, prolongar a vida, seja pelo tempo que Deus quiser.

De repente, o silêncio pode ser quebrado pelo flautista Toninho Carasqueira, que costuma tocar pelos corredores para amenizar um pouco a dura rotina hospitalar.

Sonha-se baixo, com coisas pequenas, um suco de frutas ou um pão com ovo frito, um novo vídeo dos netos, quem sabe poder viajar para uma praia qualquer, assim que for possível.

Minha maior alegria por esses dias é que na terça-feira o pessoal do posto de saúde ao lado vem ao hospital vacinar os pacientes idosos entre 72 e 74 anos. Como acabo de fazer 73, tenho direito. Dei sorte...

Cada novo dia em que sobrevivemos à pandemia é uma vitória. Dá vontade de sair abraçando todo mundo, mas por enquanto sei que isso é proibido.

É preciso ficar firme e forte para o dia em que for possível novamente viver sem sustos e olhar para o futuro, sem medo.

Do outro lado da tela da TV, onde não para de morrer gente, a vida continua.

Apesar de tudo, vida que segue.