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Balaio do Kotscho

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

31 de Março de 2021: celebrar o quê, general? Pandemia, desemprego e fome?

Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

31/03/2021 13h01

"Temos ódio à ditadura. .Ódio e nojo" (Ulysses Guimarães, ao proclamar a Constituição de 1988).

***

E assim chegamos a 31 de Março de 2021, dia do 57º aniversário do Golpe Militar de 1964, com o país em frangalhos, agora governado por um capitão expulso do Exército, que acaba de provocar a maior crise nas Forças Armadas desde a redemocratização do país, em meio a uma pandemia avassaladora que já matou mais de 318 mil brasileiros e deixou 12,7 milhões de contaminados pelo coronavírus.

Mesmo assim, o novo ministro da Defesa, general Braga Netto, encontrou motivos para convidar a população a "celebrar" a data em sua primeira Ordem do Dia.

A resposta a esse escárnio veio na lata pelo governador de São Paulo, João Doria:

"Ao contrário do que declarou ontem o novo ministro da Defesa, general Braga Netto, o Brasil não tem razão nenhuma para comemorar o Golpe de 1964. Tem, sim, muitas razões para chorar a ditadura militar e os milhares de mortos e torturados na fase mais dura da história brasileira".

Comemorar o quê, general?

Com os hospitais e cemitérios superlotados, 14,3 milhões de desempregados e mais de 10,3 milhões de famílias passando fome, segundo o IBGE, o Brasil se tornou o pior país do mundo para se viver.

Vocês estão destruindo aquela que já foi a 6ª maior economia do mundo há 10 anos, e agora caiu para o 12º lugar, com tendência de baixa, colocando em risco as instituições democráticas, a federação e as relações internacionais, incapazes de proteger a Amazônia e enfrentar a crise sanitária sem precedentes, provocando deliberadamente o caos social em sua louca escalada autoritária e desumana.

Comemorar o quê, general?

A fome e o desespero grassam neste país novamente governado pelos militares, sem recursos para a educação e a saúde, famílias sem teto jogadas nas calçadas das grandes cidades, a violência urbana fora de controle, com as milícias à solta e bem armadas, a infraestrutura do país detonada, milhões de jovens desesperançados, sem trabalho e sem escola.

Estamos chegando a abril e não temos até hoje um orçamento aprovado para 2021, com um ministério de incompetentes e lunáticos, verdadeiro catado do que o país tem de pior e mais repulsivo, e um Congresso dominado pelo fisiológico Centrão, que só quer garantir recursos para suas emendas parlamentares, mordomias e privilégios para os militares.

Nunca tivemos um governo como esse, tão distante dos anseios e demandas da população, que vive numa realidade paralela e deixa aos sobressaltos 212 milhões de habitantes a cada novo surto do capitão contra inimigos reais ou imaginários, uma população encurralada, impedida de sair às ruas pelo desmazelo do Ministério da Saúde, o boicote federal à vacinação em massa e às medidas de distanciamento social para combater a pandemia.

Não basta o que vocês fizeram na longa noite dos 21 anos de ditadura militar, que ceifaram os sonhos de toda uma geração e deixaram como herança a hiperinflação e uma impagável dívida pública construída nos delírios do "Brasil Grande"?

Comemorar o quê general?

Vocês deveriam era pedir desculpas à Nação pelo mal que fizeram ontem e continuam fazendo hoje, quando se imaginava que esse passado das trevas estava para sempre enterrado no lixo da história.

Enquanto escrevo, sei que mais e mais brasileiros estão morrendo sem leitos, remédios e oxigênio nos hospitais, e nós agora ficamos aqui discutindo a crise militar _ era só o que faltava! _ deixando em segundo plano a pandemia ignorada pelo capitão em seus delírios golpistas.

Aos 73 anos, general, não esperava viver tudo isso outra vez.

Perdoem-me os leitores pelo desabafo, mas não dá para fazer de conta que nada está acontecendo, que o país não vai morrendo aos poucos, e tem alguma coisa para comemorar neste dia, um dos mais tristes da nossa história.

Vida que segue. .

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL