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Balaio do Kotscho

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Nada vai mudar, não vai ter golpe: militares enquadraram o capitão

General Paulo Sergio Nogueira: Bolsonaro teve que engolir o novo comandante do Exército indicado pelo Alto Comando - Reprodução/ Redes sociais
General Paulo Sergio Nogueira: Bolsonaro teve que engolir o novo comandante do Exército indicado pelo Alto Comando Imagem: Reprodução/ Redes sociais
Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

01/04/2021 12h08

Resumo da ópera: sem conseguir enfrentar o avanço da pandemia, o capitão tentou arrastar as Forças Armadas para uma aventura golpista, mas ficou pendurado na broxa, ao inventar do nada uma crise militar para mudar de assunto.

Era só o que faltava na tragédia brasileira. Em poucas horas, os militares se reuniram e desmontaram a bomba-relógio armada por Bolsonaro ao demitir o ministro da Defesa. Desembarcaram do governo e enquadraram o presidente nos limites constitucionais.

"Nada vai mudar com a troca dos comandantes. Não vai ter golpe nenhum. O tiro saiu pela culatra", garantiu-me ontem à noite um respeitado general da reserva, contemporâneo dos novos chefes militares e dos 17 integrantes do Alto Comando do Exército.

A maior prova de que Bolsonaro não conseguiu levar adiante o plano de subordinar as Forças Armadas aos interesses do governo foi engolir a nomeação do general Paulo Sérgio Nogueira para o comando do Exército.

Foi ele quem provocou a última divergência do ex-ministro Fernando Azevedo e Silva com Bolsonaro, ao conceder uma entrevista no fim de semana ao Correio Braziliense, em que defendeu mais restrições no combate à pandemia, na contramão da política suicida do presidente de mandar todo mundo voltar a trabalhar para salvar a economia, como voltou a fazer ontem num discurso sem pé nem cabeça em que parecia visivelmente alterado e abatido.

Paulo Sergio é da mesma linha legalista do ex-comandante Edson Pujol, que o presidente queria demitir há tempos e, contrariado por não ter sua vontade atendida, resolveu se livrar do ministro da Defesa para montar um esquema militar fiel à sua imagem e semelhança para implantar um regime de exceção no país.

Aconteceu exatamente o contrário: os militares das três Armas se uniram em torno dos seus chefes para garantir a independência das Forças Armadas na relação com o governo.

Prevaleceu nas nomeações o critério da antiguidade, imposto ao novo ministro da Defesa, Braga Netto, chamado de "interventor de Bolsonaro", o que esvaziou a crise armada no horizonte.

"Se Bolsonaro tentar uma nova investida, vai ter o mesmo resultado. Se pensar que vai ter os comandantes a seus pés, vai quebrar a cara. Além disso, a pressão da reserva é grande", disse-me o general.

Até agora, quatro dias após a eclosão da maior crise militar desde 1977, o capitão está tão perdido que ainda não se dignou a falar ao país sobre o que o levou a demitir o ministro da Defesa e os comandantes militares, que já tinham decidido renunciar a seus postos.

Isolado no bunker do Palácio do Planalto, agora protegido apenas pelo Centrão, a quem entregou as chaves do cofre para salvar os anéis e evitar o impeachment, um Bolsonaro menor e mais enfraquecido vai tentar arrastar a procissão pelos longos 650 dias que ainda tem de mandato, sem forças para chamar "o meu Exército" em caso de necessidade.

Mais do que dedicar todo seu tempo à campanha pela reeleição e à defesa dos filhos e dos acólitos, o presidente terá que começar a governar para não cair, algo quase impossível para quem nunca trabalhou na vida com carteira assinada e cartão de ponto, e é cercado de ministros medíocres.

Para quem passou toda a campanha eleitoral fugindo de debates, sem apresentar qualquer programa de governo, só fazendo ameaças e apontando arminha com os dedos, chegou a hora da verdade.

O Brasil é um país grande e complexo demais, afundado na maior crise da sua história, para ser administrado como se fosse uma bodega da Barra da Tijuca.

Tem cada vez mais gente morrendo sem assistência, não cabe mais ninguém nos cemitérios, e o capitão finge que não é com ele.

Esse pesadelo uma hora tem que acabar. Tudo precisa ter um limite, até a boçalidade.

Chega!

Vida que segue.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL