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Balaio do Kotscho

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Super Quarta no STF pode decidir os destinos de Lula e Bolsonaro

Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

12/04/2021 12h03

Quis o destino, ou melhor, o presidente do STF, Luiz Fux, que sejam julgados pelo plenário do tribunal nesta próxima quarta-feira, dia 14, dois processos que podem definir os destinos de Lula e Jair Bolsonaro para as eleições presidenciais de 2022.

Na pauta elaborada por Fux, a primeira da fila é a liminar concedida pelo ministro Luis Roberto Barroso, que determinou ao Senado a abertura da CPI do Genocídio, para investigar as ações e omissões do governo federal no combate à pandemia.

No mesmo dia, o STF julgará a decisão do ministro Edson Fachin, que anulou as condenações de Lula por Sergio Moro, que já foi declarado suspeito, na Lava Jato, em Curitiba.

A tendência, até o momento, é que o pleno do STF mantenha as decisões de Barroso e Fachin.

Isso significa que Bolsonaro terá de enfrentar a primeira CPI do seu governo, com grandes chances de levar o presidente às cordas, e deixar Lula livre para disputar as próximas eleições.

Exatamente por isso, Bolsonaro está estrebuchando para melar a CPI, tentando incluir nela governadores e prefeitos, além de pedir o impeachment de ministros do STF, como revelou o áudio gravado e divulgado pelo senador Jorge Kajuru, que jogou mais gasolina no fogo que arde em Brasília.

Para se ter uma ideia do descontrole do capitão-presidente, basta ver suas últimas declarações divulgadas nas redes sociais, dirigidas ao senador:

"Se a facada tivesse sido fatal, você teria como presidente Haddad ou Ciro. Sua liberdade, certamente, não mais existiria. Hoje você está tendo uma amostra do que é comunismo e quem são os protótipos de ditador, aqueles decretos de proibição de cultos, toques de recolher, expropriação de imóveis, restrição a deslocamentos, etc."

É uma referência às medidas de distanciamento social adotadas por governadores e prefeitos para evitar a propagação do vírus, que Bolsonaro combate desde o ano passado, para "salvar a economia", enquanto o país registra mais de 350 mil mortos na pandemia, com a média de óbitos superior a 3 mil por dia nas últimas duas semanas, com 14,3 milhões de desempregados.

Não se tem nenhuma notícia sobre "expropriação de imóveis", mas os cultos presenciais já foram proibidos pelo STF na semana passada.

"Se não mudar o objeto da CPI, ela vai para cima de mim", justificou o presidente na conversa com Kajuru, que pode lhe render mais uma denúncia por crime de responsabilidade, somando-se aos mais de 100 pedidos de impeachment que repousam nas gavetas do presidente da Câmara, Arthur Lira.

Rodrigo Pacheco, o presidente do Senado, segurou por mais de 60 dias a abertura da CPI do Genocídio, mas já anunciou para amanhã a leitura do pedido feito pelo senador Randolfe Rodrigues, primeiro passo para instalar a investigação dos atos do governo na pandemia, ordenada por Barroso.

Resta ao governo a tentativa de tirar algumas das assinaturas coletadas por Rodrigues e intimidar os ministros do STF, o que pode ser mais um tiro no pé.

Com suas manobras e declarações estapafúrdias, o presidente conseguiu apenas unir os ministros contra ele, assim como os senadores que são a favor da investigação.

Ainda recluso em sua casa por conta da pandemia, Lula, por sua vez, limitou-se a divulgar nas redes sociais a íntegra da reportagem do "Le Monde" publicada neste final de semana, mostrando como Sergio Moro agiu na Lava Jato com e a favor dos Estados Unidos, e contra o Brasil, na operação que destruiu mais de 4 milhões de empregos, para prender Lula, uma joint-venture do juiz com os procuradores de Deltan Dallagnol.

O cenário já foi mais favorável a Moro no STF, que ratificou as decisões do ex-juiz para deixar Lula fora da eleição de 2018, após uma pouco sutil pressão do ministro do Exército, Eduardo Villas Boas, como ele relata próprio no seu livro de memórias, publicado este ano.

Mais uma vez, caberá ao STF decidir quem poderá ou não disputar a sucessão em 2022, a depender dos julgamentos de quarta-feira e dos rumos da CPI do Genocídio.

Ao que tudo indica, inverteram-se os papéis dos dois concorrentes que lideram com folga as pesquisas, sem deixar espaço para o surgimento de uma "terceira via".

Agora, quem poderá ficar de fora é o atual presidente, se a CPI realmente investigar a fundo quem foram os responsáveis pela tragédia da pandemia no Brasil, ou então chegar enfraquecido à campanha eleitoral de 2022, deixando o caminho livre para seu principal adversário.

Façam suas apostas.

Vida que segue.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL