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Balaio do Kotscho

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A pandemia e o convívio diário com a finitude da vida no país das mortes

Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

21/04/2021 11h57

Com entradas separadas por causa da pandemia, o ambiente no Departamento de Oncologia, abrigado no velho casarão original do Hospital Sírio-Libanês, parece um oásis de tranquilidade e silêncio onde médicos, enfermeiros e pacientes só falam o necessário em voz baixa ao se encaminhar para o tratamento. Cada um ali sabe exatamente o que deve fazer para seguir a rotina, que pode durar semanas ou anos.

Na TV ligada num canal de notícias na sala de espera, só se fala nas mortes diárias provocadas pela irresponsabilidade do governo negacionista e perverso, mas aqui as pessoas lutam todos os dias contra a finitude da vida, cada vez mais presente.

"Todos vamos morrer um dia", tenta nos confortar o capitão, ao se negar a responder sobre os recordes diários de óbitos e a falta de vacinas.

O Brasil se tornou o pior lugar do mundo para se viver, o país onde mais se mata e, no entanto, ninguém tem pressa para que a sua previsão necrófila se concretize.

Ao contrário, aqui todos confiam na ciência para enfrentar esta doença milenar, que só não é pior do que os vírus da covid-19 e da ignorância que assolam o país.

Festas clandestinas e aglomerações de todo tipo se alternam no noticiário da TV com o desespero de profissionais de saúde sem recursos básicos e de parentes em busca de vagas nos hospitais superlotados onde não para de chegar mais gente.

São os dois retratos trágicos de um país doente do corpo e da cabeça em que nunca se falou tanto de morte e, no entanto, nunca se lutou tanto pela vida.

Até alguns anos atrás, um diagnóstico de câncer representava quase uma pena de morte, mas os avanços da medicina e dos recursos tecnológicos e digitais hoje nos dão esperanças de cura na maioria dos casos, desde que as pessoas tenham acesso a um tratamento decente.

A pandemia apenas escancarou as desigualdades sociais pré-existentes no país, onde os ricos do Posto Ipiranga ficam cada vez mais ricos e os pobres, mais pobres, não por acaso os que mais morrem do coronavírus, de câncer ou de fome, como mostram todas as estatísticas.

Quis o destino que eu iniciasse um tratamento contra o câncer no momento mais dramático da pandemia brasileira, com as novas variações do vírus e o desmantelo da saúde pública.

Cheguei a ficar em dúvida se corria mais risco em andar na rua ou ir para o hospital me tratar, mas logo vi que não havia motivos para isso.

Não existe lugar mais seguro do que aqui, onde são multiplicados os cuidados para evitar qualquer possibilidade de transmissão do vírus, cada paciente é tratado como o único, e todos só pensam em se salvar ou curar os doentes, não em aumentar seu sofrimento, como acontece na vida fora dos hospitais, com a sabotagem oficial à vacinação, que está parando, e às medidas sanitárias de combate à proliferação descontrolada do vírus na população.

É como se eu vivesse ao mesmo tempo em dois países com realidades paralelas numa guerra permanente _ um lutando pela vida e outro buscando a morte, como algo inevitável e improrrogável, até se atingir a "imunidade de rebanho".

Para um governo que trata os brasileiros como gado a ser tangido para o matadouro, tem tudo a ver.

Já morre mais gente do que nasce pela primeira vez na nossa História, com o único objetivo de salvar a economia em frangalhos, para dar sobrevivência a este governo moribundo.

Não se dão conta de que só a vacinação em massa pode salvar a economia, o governo, e o resto, mas preferiram investir em cloroquina e outras panaceias, que mobilizaram o Exército e fizeram a festa de alguns laboratórios amigos sob o olhar complacente do patético general Pazuello, aquele que só obedecia às ordens do chefe em seus surtos de megalomania.

É mais fácil hoje em dia um paciente se curar de câncer do que sair vivo da intubação numa UTI dos hospitais públicos, em colapso desde o início do ano, enquanto o capitão passava férias na praia e promovia alegres aglomerações de insanos como ele.

De repente, nos demos conta da finitude da vida, esfregada a cada dia na nossa cara pelas notícias do Brasil real, no embalo do desemprego e da miséria, na falta de governo e de vergonha na cara dos que ainda receitam o "kit covid" do capitão e de quem o sustenta no poder.

Pode ser que a CPI do Genocídio coloque fim a esse pesadelo, ou não. Mas uma coisa é certa: amanhã, vamos passar mais vergonha com o "pronunciamento" de três minutos de Bolsonaro sobre seu programa "de defesa da Amazônia", na Cúpula do Clima liderada por Joe Biden, o presidente americano que em apenas três meses vacinou a população, e fez o mundo esquecer das ameaças do "meu amigo" Donald Trump, outro negacionista de carteirinha.

Presidentes podem, sim, mudar a vida de um país, para o bem ou para o mal.

Vida que segue.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL