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Balaio do Kotscho

Segundo o general Pazzuelo Rolando Lero, 441 mil brasileiros se suicidaram

Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

20/05/2021 17h10

O nosso cinema não sabe que grande roteirista de ficção surgiu em meio à pandemia, capaz de transformar uma tragédia sem precedentes em filme infantil com final feliz.

Para ele, o inacreditável general de divisão Eduardo Pazuello, que durante 10 meses "cumpriu missão" no Ministério da Saúde, nenhum brasileiro morreu por ação ou omissão do governo.

Ninguém no governo Bolsonaro, a começar pelo presidente, errou ou se omitiu no combate à maior crise sanitária já vivida pelo nosso país.

Diante desse Rolando Lero fardado, chega-se à conclusão, ao final do segundo dia da história da carochinha contada pelo general à CPI do Senado, que centenas de milhares de brasileiros morreram simplesmente porque decidiram parar de viver _ suicidaram-se todos.

"Missão cumprida", vangloriou-se o general quando lhe perguntaram o motivo da sua saída do governo.

Só pode ter sido uma conspiração chinesa para desgastar o governo brasileiro que provocou essa mortandade em série que não tem fim.

Pazuello não chegou a dizer isso, mas deve ter pensado, para explicar as 441 mil mortes de brasileiros na pandemia, como se os senadores e todos os que respeitamos o "fique em casa", recomendado por autoridades sanitárias no mundo inteiro, fôssemos mesmo idiotas, como disse outro dia o capitão.

Com a maior cara de pau, sem gaguejar nem ficar vermelho, o general apresentou sua visão "holística" sobre a atuação do governo, fugindo das perguntas como seu chefe dos debates em 2018.

Protegido por um habeas corpus preventivo para não sair preso dali, o general controlou os nervos e pode mentir à vontade, inventando as mais mirabolantes versões, como a de que nunca recebeu uma ordem do presidente e mal falava com ele durante todo seu tempo à frente do ministério.

Isso pode até ter um fundo de verdade porque trabalhar não é muito a praia dele. Desde a sua posse, Bolsonaro está mais preocupado em regulamentar radares e o uso de cadeirinhas para crianças nos carros, liberar armas e munições, fazer lives e publicar tuítes, agradar a turma do Centrão e os caminhoneiros, andar de moto e de jet-sky, liberar a devastação da Amazônia para passar a boiada do Ricardo Salles e xingar a imprensa nas horas vagas.

Como um ajudante de ordens leal e dedicado, Pazuello fez de tudo para blindar e livrar a cara do capitão, mas também não confessou nenhum erro que possa ter cometido na condução do Ministério da Saúde.

Como Bolsonaro já tinha dito no começo da pandemia, morreu quem tinha que morrer. "E daí?, eu não sou coveiro".

Em nenhum momento do interminável depoimento, o general mostrou qualquer empatia nem piedade com as famílias dos mortos ou arrependimento pela falta de oxigênio, demora na compra de vacinas e distribuição a granel da cloroquina receitada pelo capitão.

Flávio Bolsonaro, que não faz parte da CPI, sentou-se bem à sua frente e não tirava os olhos do general. Deve ter ficado orgulhoso com a atuação dele na defesa do governo.

No Brasil real, continuam morrendo mais de dois mil brasileiros por dia, mas no governo de ninguém o que vale é a versão, não os fatos, não há responsáveis por nada, todos se consideram inimputáveis.

Vida que segue.

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