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Balaio do Kotscho

Não é só incompetência: genocídio de 1,4 milhão foi planejado por Bolsonaro

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Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

28/05/2021 14h20

"O presidente Bolsonaro continua fazendo as mesmas coisas todos os dias. É difícil não responsabilizá-lo" (senador Renan Calheiros, relator da CPI da Covid, na Veja).

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Por trás da incompetência visceral do governo, esconde-se uma ação planejada pelo governo Bolsonaro na pandemia.

É isso que fica mais claro a cada novo depoimento na CPI da Covid: o boicote à compra de vacinas, a defesa da "imunidade de rebanho" e o tratamento à base de uma panaceia chamada cloroquina formam o tripé de uma estratégia macabra do governo federal durante a pandemia que já tirou a vida de quase 500 mil brasileiros, mas esse número ainda poderá ser muito maior.

A pá de cal para apontar Jair Messias Bolsonaro na CPI como o principal responsável pelas mortes foi dada nesta quinta-feira durante o depoimento do diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas. Não será preciso ouvir mais ninguém.

O Butantan teria condições de entregar 100 milhões de doses da CoronaVac até este mês de maio. Mas, em outubro do ano passado, Bolsonaro proibiu o então ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, de assinar o contrato para a compra da "vacina chinesa do Doria", como ele disse nas redes sociais.

Só o contrato com o Butantan poderia ter evitado 80.300 mortes, segundo cálculo do epidemiologista Pedro Hallal, da Universidade Federal de Pelotas (RS).

Na mesma época, o governo brasileiro não respondeu às várias propostas da Pfizer para o fornecimento de outras 70 milhões de doses até o primeiro trimestre de 2021.

Bolsonaro desde sempre foi contra a vacinação em massa da população, debochando da sua eficácia.

Preferia seguir as recomendações do seu "ministério paralelo", formado pelos filhos políticos, o deputado Osmar Terra, que defendia a "imunidade de rebanho", o ex-secretário da Secom Fabio Wajngarten, o assessor internacional Filipe Martins, o ex-assessor Arthur Weintraub, o empresário Carlos Wizard.e a médica Nize Yamaguchi.

Documentos da Casa Civil entregues à CPI, revelados hoje pela Folha, mostram que os integrantes desse grupo participaram de ao menos 24 reuniões nos palácios do Planalto e do Alvorada com o presidente para tratar das estratégias do governo de combate à pandemia.

Todos eles eram contrários ao isolamento social e ao uso de máscaras, defendiam que a covid-19 poderia ser tratada com remédios sem comprovação científica, que provocam diversos e graves efeitos colaterais, como foi demonstrado pela Organização Mundial da Saúde.

Por não concordarem com essa estratégia, os dois primeiros ministros da Saúde, Luiz Mandetta e Nelson Teich, deixaram os cargos, sendo substituídos pelo general Eduardo Pazuello, uma espécie de ajudante de ordens de Bolsonaro, sem nenhuma intimidade com a área da saúde, que nem sabia o que era o SUS e levou uma tropa de militares, igualmente jejunos na matéria, para assessorá-lo.

O que a princípio se mostrava apenas um caso de incompetência governamental para combater a pandemia do coronavírus revelou-se na CPI um plano deliberado para causar a morte de brasileiros, como foi denunciado nesta sexta-feira no New York Times, o jornal mais influente do mundo, em artigo assinado pela jornalista Vanessa Bárbara:

"Bolsonaro aparentemente pretendia levar o Brasil à imunidade de rebanho por infecção natural. Isso significa _ assumindo uma taxa de mortalidade de 1% e infecção de 70% como limite para a imunidade de rebanho _ que Bolsonaro planejou pelo menos 1,4 milhão de mortes no Brasil".

Renan Calheiros tem razão ao afirmar que Bolsonaro continua fazendo as mesmas coisas todos os dias para atingir o seu objetivo.

Em sua live das quintas-feiras, transmitido diretamente a partir de Matucará, no Amazonas, onde Bolsonaro visitou pela primeira vez uma aldeia indígena e se reuniu novamente com militares, para discutir o que fazer com o general Pazuello, o presidente encontrou novos remédios milagrosos para receitar no tratamento da covid.

Recomendou chás usados pelos índios balaios: "Anota aí: chá de carapanaúba, saracura ou jambu. Não tem comprovação científica, certo, mas tomaram isso e nenhum havia morrido de covid-19".

Para mostrar a seriedade com que o presidente da República trata a maior crise sanitária já vivida pelo país, Bolsonaro sugeriu também à CPI convidar os indígenas para depor sobre o uso desses chás.

Como ainda faltam oficialmente 603 dias para acabar o governo Bolsonaro, que está em plena campanha pela reeleição, não corremos o menor risco de voltarmos tão cedo a ter uma vida normal _ a não ser que a CPI conclua logo seus trabalhos e entregue à Justiça os responsáveis pelo genocídio da imunidade de rebanho, antes que mais milhares de brasileiros morram tomando cloroquina e os chás dos índios.

Vida que segue.

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