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Balaio do Kotscho

Charlatões do gabinete paralelo fizeram a cabeça de Bolsonaro na pandemia

Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

02/06/2021 16h00

"Como chama um cabra que nunca passou na faculdade e prescreve remédio? Para mim, é charlatão" (De Omar Aziz, presidente da CPI da Covid, para a oncologista Nise Yamaguchi).

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De onde o doutor Jair Bolsonaro tirou a ideia de enfrentar a pandemia do coronavírus com o "tratamento precoce" à base de cloroquina e outras crendices e mandingas, e defender a "imunidade de rebanho", enquanto boicotava a compra de vacinas?

A principal descoberta da CPI da Covid até agora foi a existência de um "gabinete paralelo", à margem do Ministério da Saúde, para orientar o ex-capitão na maior crise sanitária já vivida pelo país, que deixou quase 500 mil mortos.e 17 milhões de contaminados com a covid-19.

E quem integrava esse tal gabinete particular de charlatões? Um anestesista, que é tenente médico da Marinha, uma oncologista, um empresário, um deputado e ex-ministro da Cidadania, um publicitário ex-chefe da Secom e vários advogados, entre outros leigos na matéria, além da eventual participação especial de filhos do presidente.

Nenhum deles é infectologista ou tem qualquer qualificação profissional para o combate a pandemias. Nise Yamaguchi não sabia nem a diferença entre um vírus e um protozoário, e foi triturada pelo senador Otto Alencar, que é medico. São todos, portanto, charlatões, a começar pelo presidente da República, que acumulou as funções de Ministro da Saúde, depois de trocar dois médicos à frente do Ministério da Saúde por um general, ajudante de ordens de três estrelas.

Apesar de negar o tempo todo a existência do gabinete secreto no Palácio do Planalto, quem acabou entregando, sem querer, a principal prova do assessoramento paralelo a Bolsonaro foi a própria Nise Yamaguchi.

Para comprovar que não participou da elaboração da minuta de um documento para mudar a bula da cloroquina, Nise entregou à CPI um documento registrado em cartório, contendo a troca de mensagens com Luciano Azevedo, o médico anestesista da Marinha que preparou um decreto a ser assinado pelo presidente Bolsonaro.

"Oi, Luciano. Este decreto não pode ser feito assim, porque não é assim que se regulamenta a pesquisa clínica. Tem normas próprias. Exporia muito o Presidente", escreveu a oncologista Nise, que se apresentava na mídia como a principal "cientista" do grupo.

Neste imbroglio federal, que está na raiz da fabricação e distribuição em massa da cloroquina, um remédio sem eficácia comprovada, para o "tratamento precoce" na rede pública de saúde, ficam algumas perguntas pendentes:

Por que Nise registrou em cartório a minuta do decreto e sua troca de mensagens com o anestesista?

Por que exporia o presidente, já que ele era o principal propagandista da cloroquina?

A existência desse documento foi revelada à CPI pelo ex-ministro Luiz Henrique Mandetta e confirmada pelo presidente da Anvisa, Antonio Barra Torres.

De depoimento em depoimento, com todas as mentiras e contradições das testemunhas do governo, a CPI já tem elementos suficientes para preparar seu relatório, como disse o presidente Omar Aziz, detalhando a responsabilidade de cada um na ação deliberada para evitar o tratamento correto no enfrentamento da pandemia, com o uso de máscaras e as medidas de distanciamento social recomendadas pela Organização Mundial da Saúde.

"Hoje encerramos um ciclo de investigação. Sabemos que o governo nunca quis comprar vacina, isso está comprovado. Não tem mais o que discutir essa questão. Está comprovado também que havia um assessoramento, não de profissionais nomeados no Ministério da Saúde. E aí foi se formatando, sem nenhum dado científico, um protocolo, com o tratamento precoce e a imunidade de rebanho. Coisa que não deu certo no Brasil e ceifou a vida de muitas pessoas", concluiu Aziz.

Só agora, 15 meses e centenas de milhares de mortes após o início da pandemia no Brasil, o novo ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, resolveu criar uma Secretaria de Enfrentamento à Covid, e chamou para ocupar o cargo alguém que é do ramo, a médica infectologista Luana Araújo.

Mas, para mostrar que quem continua dando as cartas é o doutor Bolsonaro e sua tropa de lunáticos, o nome da médica foi vetado pelo Palácio do Planalto.

No depoimento que prestou nesta quarta-feira à CPI, ficou claro por que Luana Araújo, que nem chegou a ser nomeada oficialmente, não poderia mesmo durar mais do que 10 dias no Ministério da Saúde.

Questionada pelo relator da CPI, Renan Calheiros, se a indicação do kit-covid feita por Bolsonaro "estimulou a população a abandonar medidas não farmacológicas", a epidemiologista não tergiversou como as outras testemunhas. Foi bem objetiva:

"Essa é uma discussão delirante, esdrúxula, anacrônica e contraproducente. Quando eu disse que há um ano atrás nós estávamos na vanguarda da estupidez mundial,_ eu, infelizmente, mantenho isso _ nós ainda estamos aqui discutindo uma coisa que não tem cabimento. É como se a gente estivesse escolhendo de que lado da borda da terra plana a gente vai pular".

Luana Araújo era a primeira pessoa certa no governo errado, na hora errada. Não poderia mesmo conviver mais tempo com os charlatões terraplanistas.

O mínimo que Marcelo Queiroga poderia fazer agora seria entregar o cargo aos que vetaram a indicação feita por ele para a secretaria. Ou vai se desmoralizar.

E depois só faltará convocar Nise Yamaguchi para ficar no lugar dele. Chega de intermediários.

Vida que segue.